Há muito tempo atrás, viveram dois homens que se tornaram amigos. Eram porém tão diferentes um do outro que todas as pessoas que de tal sabiam se admiravam. Um era Saladinoo, o sultão da Babilónia, o outro, Nathan, um piedoso judeu.
Saladino era conhecido pelo seu povo pela valentia com que derrotava os seus inimigos. Nathan tinha fama de ser rico e muito avarento.
Foi assim que tudo se passou:
Certo dia, o sultão, que era esbanjador, viu-se em apuros: a câmara do tesouro estava vazia. Esperava impacientemente por uma grande soma de dinheiro que vinha do Egipto, mas a caravana que devia trazer-lha tinha, pelos vistos, perecido numa tempestade do deserto, ou fora assaltada por ladrões.
O sultão só encontrou uma forma de sair da sua aflição: pedir ajuda a um homem que só conhecia de ter ouvido falar: Nathan.
“Nathan vai emprestar-me o dinheiro a juros exorbitantes”, pensou ele. “Tenho de arranjar maneira de impedir que isso aconteça.”
Para o sultão teria sido fácil recorrer à violência para obrigar Nathan a dar-lhe o dinheiro de que precisava, mas quis tentar, fazendo uso da delicadeza e das boas-maneiras aparentes.
Mandou chamar Nathan e recebeu-o amavelmente, com todas as honras.
— Meu amigo — disse-lhe ele — já ouvi de muita gente que não só és piedoso, como também versado nas coisas divinas. No nosso país há três religiões que lutam entre si e cada qual faz-se passar pela melhor. Gostaria de saber da tua boca qual das três é para ti a religião verdadeira, a judaica, a muçulmana ou a cristã.
Nathan, que não só era rico mas também inteligente, suspeitou que, com esta pergunta, Saladino queria armar-lhe uma ratoeira. Qualquer que fosse a tradição religiosa que ele colocasse em primeiro lugar, o sultão armar-lhe-ia uma cilada a partir da resposta.
“Digo: a judaica, e o sultão acusa-me de estar contra a sua religião. Digo: a tua religião, sultão, e ele pergunta-me porque não acredito na crença judaica.”
Nathan reflectiu por um momento e de seguida disse:
– Meu senhor, a pergunta que me colocas é sábia e profunda. Se devo dar-te a minha opinião, deixa-me, como resposta, contar-te uma história.
Há muitos anos, viveu no Extremo Oriente, um homem abastado. Entre os muitos tesouros que tinha, guardava um anel de valor incalculável: um diamante que reflectia a luz em todas as cores. E aquele que o via não era capaz de despregar os olhos dele.
Contudo, o que tornava o anel ainda mais valioso era o poder especial que atribuía àquele que o usasse no dedo: o poder de amar o outro como a si mesmo.
Tal como seu pai e todos os seus antepassados, também este homem iria um dia deixar o anel ao mais querido dos seus três filhos.
O homem tinha três filhos. Davam-lhe muitas alegrias, todos eram dignos do amor do pai e espertos, cada um à sua maneira, mas o pai amava-os a todos por igual.
A quem deveria deixar o anel?
Quanto mais o tempo passava, mais difícil lhe parecia a resposta. Em conversas privadas com o pai, cada um dos filhos tentava convencê-lo de que só ele era digno de possuir o anel e de substituir o pai como chefe de família.
Por isso, num dia, o homem prometeu o anel ao mais velho, no outro dia, ao mais novo, e no terceiro, ao do meio.
Por fim, mandou chamar um ourives e deu-lhe a tarefa de fazer mais dois anéis e de não se poupar a esforços para os fazer iguais ao original.
Assim que o artista acabou o trabalho, nem mesmo o pai conseguia distinguir o original das cópias.
No leito de morte, mandou chamar os três filhos pela última vez, abençoou-os e deu um anel a cada um.
Mal o pai foi enterrado, o mais velho gabou-se de ser o dono do anel, mas não coube em si de espanto quando os dois irmãos mais novos mostraram, envaidecidos, uma jóia igual.
Começaram a discutir e a insultar-se. Mandaram examinar minuciosamente o anel mas em vão. Cada um dos anéis era tão valioso como os demais. Nem o juiz conseguiu decidir qual dos três irmãos era o herdeiro legítimo.
Após muito reflectirem, concluíram que o pai os amava aos três por igual e os escolhera a todos. Fizeram por isso as pazes e passaram, dali por diante, a amar o próximo como a si mesmos, cada um à sua maneira… para agradarem ao pai.
Quando Nathan acabou a história, fez-se silêncio por um momento.
— Desculpa — disse por fim Nathan — porque também eu não me atrevo a distinguir os três anéis. Não devemos, por isso, tentar decidir qual das três religiões é a única verdadeira. Vamos olhá-las como iguais e como dons do Pai que são.
— Caro Nathan, a tua história toca-me — disse o sultão. — Sê meu amigo daqui para a frente.
Ao ouvir a história, Saladino tinha esquecido por completo a razão por que havia chamado Nathan.
— Não tinhas mais nenhum pedido a fazer? — lembrou-lhe Nathan.
— Não — respondeu o sultão.
— Ah! — disse Nathan a seguir. — Voltei há pouco de uma viagem bem sucedida e tenho muito dinheiro em casa. Se precisas dele, de boa vontade te ajudo.
Agradecido, Saladino aceitou a oferta e confessou que, no fundo, fora o que primeiro tinha pretendido dele, tendo pensado obtê-lo pela força, caso fosse preciso.
Pouco depois, o sultão pôde devolver a Nathan o dinheiro emprestado. Cumulou-o de riquezas e concedeu-lhe honras e prestígio em todo o reino.
Die Geschichte des weisen Nathan
Wien, Herder Verlag, 2004
Texto traduzido e adaptado
segunda-feira, 16 de julho de 2007
A história do sábio Nathan - Max Bolliger
sábado, 7 de julho de 2007
Os dois vasos - Franz König
Numa dessas viagens, encontrando-me numa grande cidade, passei junto a uma escola primária. Entre os meus acompanhantes, encontrava-se um jovem professor. Parou em frente à escola e apontou para uma janela no primeiro andar.
— Está a ver aqueles dois vasos atrás dos vidros?
— Sim — disse eu.
— Têm uma triste história — continuou ele. — Eu vivi-a, ainda há pouco tempo, como estagiário naquela sala. Estava sentado na última fila e presenciei tudo.
— Conte!
*
“Um dia, a professora chegou à sala e disse:
— Vejam, meninos, o que vos trouxe!
Eram dois vasos, um saco com terra para jardim, um regador pequeno e um punhado de ervilhas.
— Vamos semear ervilhas! — exclamaram as crianças.
— E vê-las crescer — disse a professora.
As crianças encheram os dois vasos com terra e a professora mostrou-lhes a que profundidade e a que distância se deviam enterrar as ervilhas. Com os dedos, as crianças fizeram buracos na terra com cerca de cinco centímetros de profundidade, onde meteram as ervilhas. Quatro ou cinco por vaso.
— Este vaso aqui — disse a professora — é o nosso vaso. E nós vamos cuidar dele.
Em seguida apontou para o outro vaso.
— Deste, é Deus quem vai cuidar.
O vaso que era de Deus foi posto à janela.
— Pronto — disse a professora. — Vamos começar a cuidar do nosso vaso. As ervilhas já estão na terra. O que temos de fazer em seguida?
— De regar! — gritaram as crianças.
Regaram bem a terra. O vaso de Deus não foi regado.
Ficaram então os dois vasos no parapeito, um ao lado do outro, o da terra húmida e o da terra seca.
Todos os dias de manhã, as crianças tocavam na terra com a ponta dos dedos para ver se estava suficientemente húmida. A terra no outro vaso começou a secar e a ficar cheia de gretas.
As crianças rejubilaram quando, no seu vaso, se começaram a ver os primeiros rebentos verdes esbranquiçados.
— Estou muito contente, meninos — disse a professora. — Vocês cuidaram muito bem do nosso vaso. E como está o outro?
No outro vaso não acontecia nada. As gretas alargaram-se, a terra secava cada vez mais.
— E Deus que não trata dele… — disse uma criança.
— Se Deus existir, vai cuidar dele — disse a professora. — Devia fazê-lo e depressa!
As ervilhas nos vasos das crianças, cresciam cada vez mais, já tinham gavinhas e folhas tenras. As crianças regavam o seu vaso todos os dias. As pequeninas plantas tinham luz e ar. Em breve foi preciso pôr-se estacas para as gavinhas se agarrarem.
Nas aulas de desenho, desenhavam os dois vasos. A professora mostrava-lhes a melhor forma de misturar as cores para conseguirem reproduzir no papel aquele tom de verde fresco.
— Que feio está o outro vaso — diziam as crianças. Também o pintavam, mas sem entusiasmo.
— Muito feio — anuía a professora. — Acham que devemos esperar mais um pouco e dar a Deus outra oportunidade para cuidar do Seu vaso?
— Eu acho que desse vaso já não vai nascer nada.
— Vamos deixá-lo ficar mais um tempo — disse uma outra criança.
Um dia, as crianças descobriram as primeiras flores nas suas ervilhas. Estavam assombradas e ficaram a admirar as cheirosas florinhas em forma de barco, com nervuras frágeis como teias de aranha.
— Maravilhosas, não são? — disse a professora. — Se vocês continuarem a ser uns jardineiros cuidadosos e tratarem do vosso vaso, vão ver como, das flores, vão nascer vagens.
Abriram-se dezassete flores de ervilha no vaso das crianças.
O outro vaso lá continuava com a terra gretada e dura como pedra.
— Que pena! — diziam as crianças. — Se nós tivéssemos tratado dele, agora também teria plantas e flores.
— Vocês têm razão — disse a professora.
*
— E foi assim — terminou o jovem. — A professora não precisou de dizer mais nada às crianças. Para elas, tudo tinha ficado claro: Deus não existia, se não, teria cuidado do seu vaso.
Naquele momento, o portão da escola abriu-se e as crianças saíram a correr. Seguimo-las com os olhos. Gostava de ir ter com elas e de lhes dizer: — Meninos, essa história dos dois vasos não é verdadeira.
— Talvez — disse eu aos meus acompanhantes — talvez em casa as crianças falem dos vasos de ervilhas. E esperemos que haja um pai, uma mãe, um avô, alguém que lhes pergunte: E de onde receberam a terra? De onde vem a água, a luz, o ar para as vossas ervilhas? De onde vieram as ervilhas que meteram na terra? De onde vem a alegria com que fazem esse trabalho? Deus dá aos homens a força, a capacidade e a alegria necessárias para serem jardineiros. Deus quer que o homem seja o jardineiro. Assim é que a Terra se torna bela para todos nós.
Franz König
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986
terça-feira, 26 de junho de 2007
Buda
Buda, de nome Siddharta Gautama, viveu no norte da Índia há quase 2500 anos. É fundador do caminho conhecido no nosso tempo por Budismo.
Buda é na verdade um título e não um nome. Significa alguém que é iluminado, um ser consciente da natureza da vida e do seu significado.
Embora nascido príncipe, deixou a sua jovem mulher e o filho acabado de nascer, assim como todas as riquezas e prestígio que possuía, para se dedicar à busca da Verdade.
Siddharta só recebeu o título de Buda aos trinta e cinco anos, quando, após seis anos de práticas espirituais, despertou para a realidade que existe para lá das aparências. A sua existência regeu-se por quatro verdades:
1ª Verdade: A vida é sofrimento → o homem angustia-se e sofre porque se liga demasiado a coisas passageiras, exteriores a si.
2ª Verdade: O sofrimento é fruto do desejo → O homem depende em demasia dos seus desejos egoístas, deixando-se levar pelas aparências e pela vaidade do mundo.
3ª Verdade: O sofrimento pode ser superado → Para tal, é importante que o homem se liberte do estado de ilusão em que se encontra.
4ª Verdade : A via que leva à libertação é a via da rectidão nas atitudes, nos pensamentos e nas palavras.
O caminho da vida é constituído por múltiplas existências. Por isso, Buda fala de Reencarnação. Os seres humanos que se apegam demasiado aos valores materiais são obrigados a reencarnar incessantemente, até compreenderem que ser é mais importante do que ter, e que a generosidade e a alegria estão sempre ligadas. A ditadura dos prazeres faz com que se fique prisioneiro do ciclo existencial (Roda do Sansara), numa sucessão de causas e efeitos que só terá fim quando o ser humano ansiar verdadeiramente pela libertação. Essa sucessão de causas e efeitos tem o nome de Karma e liga as várias existências entre si. Aquele que pratica actos negativos colherá, numa existência seguinte, frutos de sofrimento. Aquele que é compassivo e generoso e se dedica à busca da Verdade alcançará, mais cedo ou mais tarde, o Nirvana, ou seja, a libertação. A sua mente iluminar-se-á (o Satori) e compreenderá os mistérios da vida e da morte. Poderá então transmitir àqueles que o rodeiam tesouros de sabedoria. Viverá com desapego, não se deixando seduzir por honras e riquezas, e procederá com justiça e com bondade. As vicissitudes da vida não o perturbarão, e saberá permanecer sereno e agir com desprendimento.
Para Buda, a prática da meditação é também muito importante, porque leva ao autoconhecimento. Aquele que medita poderá conhecer melhor o seu mundo interior, as suas reacções instintivas, emoções e pensamentos, e tornar-se, por isso, uma pessoa mais recta. Aprenderá igualmente a respeitar todos os seres, mesmo os mais pequenos, e a viver em comunhão com a natureza.
O Budismo tornou-se uma tradição de tolerância e conheceu uma ampla difusão, assumindo feições particulares nos vários países onde se implantou. São disso exemplos o Budismo Tibetano, o Budismo Zen (Japão) e o Budismo Chan (China).
As três árvores - lenda popular
Mas, Primavera após Primavera, o seu pequeno tronco foi ficando cada dia mais robusto. E enfrentavam corajosamente os desafios outonais e invernais, que as fortaleciam ainda mais. Do cimo da colina contemplavam o mundo e sonhavam no que seriam quando fossem grandes.
A primeira árvore olhava para as estrelas que brilhavam como diamantes incrustados no vestido negro da noite. E disse:
— Eu, acima de tudo, gostaria de ser bela e de guardar um tesouro. Desejaria ser coberta de ouro e conter pedras preciosas.
A segunda árvore contemplava o rio que descia serpenteando a montanha e abrindo caminho em direcção ao mar. A água corria por entre os seixos e ninguém a podia parar. E disse:
— Eu desejaria ser forte. Ser um grande barco! Navegar nos mares imensos e transportar capitães e reis poderosos. Ser o galeão mais forte do mundo.
A terceira árvore contemplava o vale que se entendia aos pés da montanha e olhava para a cidade lá ao longe, onde se movimentavam as pessoas. E disse:
— Eu não quero deixar esta montanha. Quero crescer tanto, que as pessoas parem a olhar para mim. Elas, erguendo os olhos para o céu, pensarão em Deus. Serei a maior árvore do mundo!
Passaram os anos. Caíram as chuvas e as pequenas árvores tornaram-se três árvores altas e imponentes.
Um dia, três lenhadores subiram à montanha com os seus machados a tiracolo. Um deles observou bem a primeira árvore e disse:
— É uma bela árvore! É perfeita.
Passados poucos minutos, depois de algumas machadadas desferidas no seu tronco, a primeira árvore caiu ao chão. Pensou então: “Agora estou para me transformar num magnífico cofre”.
O segundo lenhador olhou para a segunda árvore e disse:
— Esta árvore é vigorosa e sólida. É precisamente a que eu procuro. Levantou o machado, que brilhava ao sol, e abateu a árvore.
A árvore pensou: “Serei uma nave importante. Navegarei nos vastos oceanos!”
A terceira árvore sentiu a respiração a faltar-lhe quando o lenhador a fixou. Este disse:
— Para mim qualquer árvore serve.
Ergueu o machado e, pouco tempo depois, também a terceira árvore jazia no chão.
Os seus belos ramos, que até há pouco serviam de abrigo aos passarinhos, foram cortados um a um.
Os três troncos, cortados, rolaram pela encosta abaixo até à planície.
A primeira árvore exultou quando o lenhador a levou a um carpinteiro. Mas o carpinteiro não tinha precisamente a ideia de fabricar cofres. Com as suas mãos calejadas transformou a árvore numa manjedoira para animais. A árvore, que era outrora tão linda, não foi revestida de lâminas de ouro nem coberta de jóias. Foi cheia de feno para alimentar os animais famintos da quinta.
A segunda árvore sorriu quando o lenhador a levou para um estaleiro naval, mas naquele dia ninguém pensava em construir um veleiro. Com grandes golpes de martelo e com a serra, a árvore foi transformada numa simples barca para pescadores. Muito pequena, muito frágil para navegar nos oceanos, a barca foi levada para um lago. Todos os dias transportava carregamentos de peixe, que a impregnavam de um cheiro desagradável.
A terceira árvore ficou muito triste quando o lenhador a partiu para fazer toscas traves, que guardou no pátio da sua casa. A árvore perguntava:
— Por que me sucede isto? Tudo o que eu queria era estar erguida no cimo da montanha e convidar as pessoas a pensar em Deus.
E recordava o tempo em que lutava com o vento no alto da montanha.
Passaram-se muitos dias e muitas noites. As três árvores quase que esqueceram os seus sonhos.
Mas, uma noite, a luz dourada de uma estrela acariciou com os seus raios a primeira árvore, precisamente no momento em que uma jovem mulher com infinita ternura depositava na manjedoira o menino acabado de nascer.
O seu marido murmurou:
— Teria preferido fazer-lhe um berço.
A jovem mãe sorriu e respondeu:
— Esta manjedoira é magnífica.
Naquele momento, a primeira árvore compreendeu que continha o tesouro mais precioso do mundo.
Passaram-se outros dias e outras noites. Uma ocasião, um viajante cansado e os seus amigos embarcaram num velho barco de pesca, que outrora tinha sido a segunda árvore.
Enquanto a segunda árvore, feita barca, deslizava tranquilamente nas águas do lago, o viajante adormeceu.
De improviso, depois de um raio acompanhado de forte trovão, desencadeou-se a tempestade.
As ondas do lago eram alterosas e a pequena barca tremeu. Sabia que não tinha força para transportar, são e salvo, a tantas pessoas com aquele vento e com a violência daquelas ondas.
Preocupados, os amigos acordaram o misterioso viajante. O homem levantou-se, estendeu os braços, gritou ao vento e disse às águas do lago:
— Acalmai-vos!
A tempestade parou imediatamente e fez-se uma grande bonança.
Naquele momento, a segunda árvore percebeu que estava a transportar o rei dos céus, da terra e dos mares infinitos.
Pouco tempo depois, numa sexta-feira de manhã, a terceira árvore ficou muito surpreendida quando as suas toscas traves foram tiradas da arrecadação de madeira. Foram transportadas para o meio de uma multidão irada, postas às costas feridas de um homem, que depois foi nelas crucificado. A pobre árvore sentiu-se muito mal. Chorava ao segurar aquele pobre corpo ensanguentado.
Mas no Domingo de manhã, quando o sol se elevou nos céus e toda a terra vibrou de uma alegria imensa, a terceira árvore soube que o amor de Deus tinha transformado tudo.
Tinha feito da primeira árvore o maravilhoso cofre do mais terno e incrível dos tesouros: o menino Jesus. Tinha feito da segunda árvore um portador do Filho de Deus através do lago. E todas as vezes que uma pessoa pensasse na terceira árvore, em forma de cruz, pensaria imediatamente no Céu.
E isto era muito melhor do que ser apenas a mais bela, a mais forte e a maior árvore do mundo.
Histórias com sumo
Porto, Edições Salesianas, 1995
terça-feira, 19 de junho de 2007
Um tostão para o Santo António - António Torrado
Até que passou por ele um senhor de sobretudo comprido, até aos pés, e de sandálias, vejam bem. E se estava frio!
O garoto, cá de baixo, reparou no desconcerto não deu importância. E vá de pedir:
— Dê-me um tostãozinho para o Santo António...
O senhor do sobretudo castanho todo esfarrapado debruçou-se para o miúdo e, sorrindo, disse-lhe assim:
— Tanto andas tu a pedir como eu. Hoje ainda não me deram nada.
— A mim já — respondeu o garoto. — Quer ver?
E mostrou-lhe, na palma da mão, umas tantas moedas. O mendigo contou-as.
— Davam e sobravam para pagar uma sopa e um pão, ali, na taberna da esquina — observou o mendigo.
— Mas eu não tenho fome — preveniu o garoto. — A minha mãe deu-me de almoçar, ainda agora.
O senhor mendigo suspirou e disse:
— Pois a minha mãe já morreu. Deve ser por isso que ainda não comi nada, hoje...
O mocinho olhou para o homem, a certificar-se se seria verdade o que ele dizia. Os olhos tristes do mendigo garantiram-lhe que sim.
Foi a vez de o garoto suspirar:
— Este dinheiro era para eu comprar berlindes...
O homem de sandálias admirou-se:
— Mas tu, há bocadinho, não pedias para o Santo António?
O garoto riu-se:
— É um costume. Quero eu lá saber do Santo António! É tudo para os berlindes.
O mendigo não estranhou a revelação. Percebia-se, a conversa ia ficar por ali. Despediu-se:
— Ainda tenho hoje muito que andar. Adeus e boa colheita.
O rapazinho viu-o descer a ruela, num passo cansado. Então, num impulso, correu atrás dele e puxou pela ponta da corda, que o homem trazia à roda da cintura:
— Tome lá para um pão e para uma sopa. Mas não vá ali àquela casa da esquina, que são uns mal-encarados. Na outra rua abaixo, há mais onde comer.
O homem de sandálias e sobretudo roto, que lhe davam um ar de frade de antigamente, agradeceu as moedas e o conselho e seguiu caminho.
O garoto voltou ao seu poiso. E quando, pouco depois, porque estava frio, meteu as mãos nos bolsos, encontrou-os atulhados de berlindes...
António Torrado
O mercador de coisa nenhuma
Porto, LivrariaCivilização Editora, 1994
sábado, 16 de junho de 2007
S. Francisco das Andorinhas - J. J. Letria
exausto da longa caminhada,
e viu aves a voar, riachos a correr,
e rebanhos nas bermas da estrada.
Vinha de muito longe,
dos lugares da desavença
onde a guerra tudo queima
e onde campeia a doença,
e só trazia consigo o pão e a água
e o fogo de uma crença
que por ser grande e sentida
como o céu se torna imensa.
Ali ficou a descansar,
cabeça encostada ao bordão
enquanto uma andorinha
vinha pousar-lhe na mão
chilreando de alegria
e tremendo de emoção.
“As andorinhas, que eu saiba”,
disse o homem assombrado
“nunca nos poisam nas mãos
com o seu voo endiabrado”.
Ouvindo isto, a andorinha
levantou voo e partiu
passando bem rente às águas
claras do grande rio.
Passou-se isto em Alviano,
contou-me um franciscano,
numa tarde muito quente
com o sol lá no alto
ainda longe do poente.
Depois de matar a sede,
o homem, que era pregador,
dirigiu-se aos animais,
aos bravos e aos dos currais,
e também a um pastor
que ao escutar palavras tais
sentiu abrandar o calor,
reparando que os pardais,
vindos dos canaviais
também poisavam, aos casais,
para ouvir o orador.
“Eu sou Francisco de Assis
e sigo a lei de Jesus,
estive para ser militar
mas foi outra a minha cruz.
Troquei bem-estar e riqueza
por esta vida tão errante
que me faz ver na pobreza
uma luz forte e distante
capaz de transformar
a tristeza em diamante
e a doença mais teimosa
numa cura radiosa
para o rei ou para o feirante,
desde as searas da Úmbria
até às terras do levante”.
Ao ouvirem-no falar
com voz mansa e delicada
os animais e o pastor
vindos para a beira da estrada
perceberam o encanto
que podem ter as palavras
de um homem de outras lavras
a que alguns chamam de santo
por ser capaz de mudar
em riso o que foi pranto
e, sem nunca se alterar,
em certeza o que foi espanto.
Nada lhes disse de novo
o homem vindo de Assis,
mas a grande novidade
mora na claridade
daquilo que um homem diz
quando fala de raiz
em nome da santidade.
Disse-lhes que o importante
não é a riqueza terrena
que a alma por ser tão sábia
torna banal e pequena,
e mais lhes disse também:
“Na vida o que nos habita
sob a forma de um poema,
é o amor que nos visita
na madrugada serena,
é a luz que nos liberta
numa capela de Ravena,
ou o cheiro do alecrim,
da urze e da alfazema
quando outra voz nos dá vida
na festa de uma verbena”.
Entreolhavam-se as cabras,
as vacas e as ovelhas
enquanto as andorinhas
com os seus cantos estridentes
saíam debaixo das telhas
como estrelas sorridentes
pondo as papoilas vermelhas
mais vermelhas e mais quentes,
fazendo coro com as abelhas
e com o canto das nascentes.
E um cavaleiro andarilho
com um gibão reluzente
riu com riso jocoso
e com ar de grande gozo
daquele homem diferente
que falava com os bichos
ali mesmo à sua frente.
Depois partiu a galope
dizendo com os seus botões:
“Nunca se viu coisa assim:
alguém a fazer aos bichos
estas prédicas e sermões
sem lhes falar em latim”.
O homem vindo de Assis
com o seu rosto de santo
dizia coisas tão simples
e tão cheias de encanto
que os bichos e o pastor
perceberam num instante
que afinal a verdade
era feita com as sílabas
que tem a claridade
quando torna as coisas da terra
eternas e sem idade
e quando torna suave
o que foi severidade
tecendo os fios invisíveis
que soltam a nossa liberdade.
O homem que foi soldado
ergueu estandartes de paz,
falou com o sol, com a lua
e a todos foi capaz
de mostrar que a irmandade
não é uma luz fugaz
na solidão da cidade,
e do seu sonho de rapaz
tirou o ceptro do poder
e sonhou coisas a valer
como seja a piedade
que dá ao doente, ao leproso
uma nova humanidade
e um tempo de repouso
também feito de humildade.
Fundou ordens sem riqueza,
Conventos e hospitais
repartiu na sua mesa,
pelas regras da natureza,
com homens e animais
o pão branco da pobreza
e a quem lhe pediu mais
deu o canto dos pardais,
remédio contra a tristeza
que se segue aos vendavais.
“Venho de um tempo dividido
de cidades contra cidades,
de imensas ambições
e graves inimizades.
Vi Veneza e Florença,
Perugia e também Assis
divididas pelos ódios
que eu temi e nunca quis.
Troquei os combates mortais
pela paz que apazigua
e que por ser um bem sagrado
é tão minha como tua.
E arranjei como aliados
as árvores da floresta,
os pássaros encantados
da alegria que nos resta.
De todos me fiz irmão
com o sonho de conseguir
que o meu pobre coração
a todos pudesse unir.
Fui visitar um sultão
tão temível e poderoso
que me olhou desconfiado
entre o espanto e o gozo
e ao ver-me desarmado,
querendo paz em vez de guerra,
prometeu mais tolerância
nos reinos da sua terra.
Eu tinha poucos saberes,
era enfermiço e franzino,
mas tinha traçado na alma
o meu rumo, o meu destino.
A todos chamei irmãos,
ao fogo, à água e ao vento
e também ao ar tão puro
que é o quarto elemento.
Fiz do meu sonho cristão
um tecto e um abrigo
e fiz do pobre, do doente
um companheiro, um amigo.
Às aves chamei irmãs
e fiz do sonho meu filho
embalando-o no meu sono
pequena espiga de milho.
Abri escola na pobreza
para chacota dos poderosos
e juntei à minha volta
os cegos e os leprosos.
E fui andando e cantando
pelos atalhos da coragem
enquanto os senhores da terra
se riam à minha passagem,
mas eu não me importava
porque em cada um ficava
a semente e a mensagem.
Fui trovador de Deus
com uma harpa de crente,
tangendo os sons amenos
que chegam a toda a gente
e assim curei as feridas,
as chagas do sofrimento,
as mágoas do abandono
e as dores do esquecimento.
Mas nunca impus a ninguém
verdades indesejadas,
caminhando por veredas
ou pelas bermas das estradas.
E aquilo que vos digo
nestes campos de Alviano
é que não deixem, irmãos,
vencer-vos o desengano,
que eu trago as rosas rebeldes
que florescem todo o ano”.
E a esta longa fala
do homem vindo de Assis
respondeu a cabra altiva
e também a codorniz,
mais o pardal de telhado,
a raposa e a perdiz
e até o pastor lá longe
fez um sorriso feliz.
E o homem que era santo
com um coro de andorinhas
retomou o seu caminho
indo para terras vizinhas.
E nunca mais foi esquecido
pelos irmãos animais
no meio do calor que abrasa
ou durante os temporais.
E diz-se lá em Assis
que depois dele morrer
vieram as andorinhas
com saudades de o ver,
mais os cavalos do pasto
e os raios do meio-dia,
os pardais, os cães, os gatos
e a vistosa cotovia,
pedindo com jeito manso:
“Dá-nos, por Deus, mais um dia
e tange na tua harpa
a mais bela melodia
que deixe nesta cidade
como quem sente a magia
um toque de santidade,
e uma grinalda de alegria”.
E o santo pequenino
que fez do mundo um irmão
e ligou o seu destino
ao amor do coração
lá saiu a esvoaçar
imitando as andorinhas,
as gaivotas e os faisões
e enchendo o ar da tarde
com cânticos e orações
e lembrando a toda a gente
que a vida será melhor
e o tempo será diferente
se o homem for mais humano
arrastando na corrente
as flores brancas de Alviano
e o brilho refulgente
das flores de todo o ano,
que se colhem pela raiz
na mãe terra generosa
do bom santinho de Assis.
José Jorge Letria
São Francisco das Andorinhas
Porto, Editora AMBAR, 2002
Adaptação
O Jantar do bispo - Sophia de Mello Andresen
I
A meio da fachada descia uma escada de granito coberta de musgo. Em frente dessa escada, do outro lado do pátio, ficava o grande portão que dava para a estrada.
A parte de trás de casa era virada ao poente e das suas janelas debruçadas sobre pomares e campos via-se o rio que atravessa a várzea verde e viam-se ao longe os montes azulados cujos cimos, em certas tardes, ficavam roxos.
Nas vertentes cavadas em socalco crescia a vinha. Era ali a terra pobre donde nasce o bom vinho. Quanto mais pobre é a terra, mais rico é o vinho. O vinho onde, como num poema, ficam guardados o sabor das flores e da terra, o gelo do Inverno, a doçura da Primavera e o fogo dos Estios. E dizia-se que o vinho daquelas encostas, como um bom poema, nunca envelhecia. À direita, entre a várzea e os montes, crescia a mata, a mata carregada de murmúrios e perfumes e que os Outonos tornavam doirada.
Mas agora era Inverno, um duro Inverno desolado e frio, e o vento desfazia o fumo azul que subia das pequenas casas pobres. Os caminhos estavam cobertos de lama. Um longo soluço parecia correr pelas estradas.
O Dono da Casa estava de pé, encostado à lareira acesa na sala grande, rodeado de convidados, que eram primos, primas e alguns vizinhos. Estava calado, alheio à conversa: meditava, pesava as suas razões, defendia em frente de si próprio a sua causa e a sua justiça. Faltava o último convidado, que era o Bispo.
O Dono da Casa tinha um pedido a fazer ao Bispo. Fora mesmo por isso que o convidara para jantar. E era por isso que, enquanto o esperava, ele meditava e preparava os argumentos da sua razão.
De facto, ali, naquelas terras de sossego, naqueles domínios submissos onde ele e seu pai e seus avós tinham exercido uma autoridade indiscutida, ali onde antes sempre reinara a ordem, tinha surgido agora uma semente de guerra.
Esta semente de guerra era o padre novo, um jovem padre de sotaina rota e cabelo ao vento, pároco de Varzim, pequena aldeia miserável onde moravam os cavadores da vinha. Havia muito tempo que Varzim era pobre e sempre cada vez mais pobre, e havia muito tempo que os párocos de Varzim aceitavam com paciência, sempre com mais paciência, a pobreza dos seus paroquianos. Mas este novo padre falava duma justiça que não era a justiça do Dono da Casa. E parecia ao Dono da Casa que, dia após dia, semana após semana, mês após mês, a sua presença ia crescendo como uma acusação que o acusava, como um dedo que apontava, como uma espada de fogo que o tocava. E ali na sua casa cujos donos tinham sido de geração em geração símbolo de honra, virtude, ordem e justiça, parecia-lhe agora que cada gesto do Padre de Varzim o chamava a julgamento para responder pelos tuberculosos cuspindo sangue, pelos velhos sem sustento, pelas crianças raquíticas, pelos loucos, os cegos e os coxos pedindo esmola nas estradas.
Finalmente surgira uma questão de contas com um caseiro e o Abade de Varzim tomara a defesa do caseiro.
— Padre — dissera o Dono da Casa —, eu pensava que o seu ofício era ocupar-se de rezas e não de contas. Os problemas morais pertencem-lhe. Os problemas práticos são comigo. Peço-lhe que deixe César ocupar-se do que é de César. Eu na sua igreja não mando: só assisto e apoio. O problema que estamos a discutir é meu, é do mundo, é um problema material e prático.
— Da nossa própria fome — respondeu o Padre de Varzim — podemos dizer que é um problema material e prático. A fome dos outros é um problema moral.
E a questão continuou. Crescia de dia para dia. O Dono da Casa estava velho e habituado a mandar e a possuir. As suas conveniências, as suas comodidades, as suas vantagens e os seus interesses pareciam-lhe direitos éticos absolutos, princípios sagrados da paz e da ordem. Por isso convidara o Bispo para jantar. Para lhe expor as suas razões e a sua justiça. Mas era-lhe difícil acusar o seu adversário. O Padre de Varzim vivia pobremente e castamente. Ninguém podia dizer que ele não era um bom padre. A sua piedade era visível e a fama da sua caridade corria de boca em boca pelos socalcos da serra. Ele sentava à mesa o tuberculoso com seus farrapos sujos de sangue e entrava no lar do leproso. Ele dava, dizia-se, tudo quanto tinha e recebia em sua casa os vagabundos. De dia para dia a sua cara esculpida pelo duro sacrifício quotidiano, o seu olhar atravessado pela visão do sofrimento, os seus ombros estreitos, a sua roupa desbotada por sóis e por chuvas, as suas botas rotas em todos os caminhos, como que se iam tornando a imagem da pobreza e da miséria de Varzim.
De certa forma, o Dono da Casa sentia-se vexado pela insignificância daquele adversário. Não estava habituado a lutar, estava só habituado a mandar. Outros por ele tinham lutado e vencido. Mas, uma vez que tinha que lutar ele próprio, gostaria ao menos de lutar com um homem forte e poderoso como ele. Adversário tão magro e desarmado fazia-lhe vergonha.
Primeiro interpretara a atitude do Abade de Varzim como sendo a expressão da revolta social dum filho de gente pobre.
Mas depois apurou que o padre era parente afastado duns seus parentes afastados e que a fome escrita na sua cara não era hereditária, mas sim voluntária. Ele rejeitara o seu lugar entre os ricos e tomara o seu lugar entre os pobres. Estas notícias não entusiasmavam o Dono da Casa.
Porque ele costumava dizer: «Todo o poder vem de Deus». E pensava que um padre devia por isso respeitar todo o poder estabelecido e respeitar o dinheiro e a importância social, expressões do poder. E considerava também inadmissível que um homem rejeitasse a herança dos seus para alinhar ao lado dos miseráveis. Um homem de boas famílias se vai para padre deve ser Bispo, Núncio ou até Papa. Mas pelo menos Monsenhor. Nunca pároco de aldeia numa serra.
A atitude do padre novo chocava-o como uma traição.
Acrescia a tudo isto que o Dono da Casa, bom gourmet, sábio em vinhos e bom viveur, detestava os ascetas, que lhe pareciam gente louca, pretensiosa e perigosa, gente pouco humana e querendo sempre o que não é natural. Ora ele teve notícia de que os frangos, as nozes, as uvas e as peras que era seu costume mandar aos sucessivos abades de Varzim em datas regulares, agora, em vez de seguirem o seu destino, que era a mesa do abade, eram distribuídos pela negra fome de Varzim. Soube também que o padre dava as couves da sua horta e as uvas da sua parreira. Dava mesmo o leite da sua cabra. Dava tudo. Por isso andava também ele como um faminto, com a sotaina gasta e as botas vergonhosas.
Isto desafiava o uso, o costume. Já nem era virtude: era desordem, anormalidade, bolchevismo.
Mas o pior de tudo era a missa de domingo. Sempre o Dono da Casa ouvira distraído em Varzim os sermões de domingo. Eram sermões que falavam de paciência, resignação e esperança num mundo melhor. Sermões que não lhe diziam respeito. De certa forma, para ele nenhum mundo podia ser melhor, e desejava por isso ir para o Céu o mais tarde possível. De maneira que, enquanto os pregadores falavam, tudo o distraía. Distraía-o a pintura do tecto, distraía-o a criança que chorava. Daí passava para a lembrança do sulfato ou da vindima ou da venda do vinho. Pensava nos seus negócios.
Mas agora já não se podia distrair. Agora o padre novo falava da caridade. E a caridade de que ele falava não era a conhecida e pacífica praxe das comedidas esmolas regulamentares. Era um mandamento de Deus solene e rigoroso, uma palavra nua de Deus atravessando o espírito do homem.
Tudo isto perturbava e incomodava o Dono da Casa. À volta da missa almoçava mal. A teologia não era a sua especialidade e este mandamento novo da caridade parecia-lhe o resultado das ideias novas e perigosas da nossa época. Ele tinha uma fé firme e sem dúvidas, baseada não nos Evangelhos, que nunca lera, mas sim na sua boa educação e no seu respeito pelas coisas estabelecidas. Dava esmola aos pobres ao sábado e ia à missa ao domingo. Tinha um banco especial na igreja e nunca chegava atrasado. E mantinha em sua casa o hábito antigo de ter sempre na sua cozinha a mesa dos pobres. A qualquer hora do dia naquela mesa era servida uma refeição a qualquer mendigo que batesse à porta. É claro que para usufruir desta benesse era preciso que o mendigo fosse doutras terras ou que, sendo do sítio, fosse reconhecido como um verdadeiro pobre. Verdadeiros pobres, na terra, eram o Lúcio, que não tinha pernas, o Manuel, que não tinha braços, o Quintino que era cego, a Joana Surda que era viúva e centenária e a Maria Louca. Estes eram verdadeiros pobres: de todo em todo não podiam trabalhar. Mas o Pedro da Serra que tinha nove filhos e ganhava quinze mil réis por dia a cavar pedregulhos, esse não era um verdadeiro pobre pois tinha um salário e dois braços.
A mesa dos pobres era uma mesa especial. Por razões de hierarquia e por razões de higiene: não se podia impor aos criados o contacto com a lama, a poeira, a sujidade, o mau cheiro e as doenças dos pobres. Assim, na ordenação daquele pequeno mundo do qual o Dono da Casa era a cabeça, os miseráveis também tinham o seu lugar, que ficava um pouco abaixo dos criados, um pouco acima dos cães. Mas apesar de tudo era um bom lugar. Ao lado do pão e do vinho, em frente do prato da sopa, a cozinheira tinha ordem de pôr sempre uma moeda.
Desta forma se mantinham as tradições daquela casa. Daquela casa tão bela, com as suas linhas limpas, com os seus materiais nobres e pobres, com as paredes caiadas, os azulejos e a grande fachada clara e direita cuja beleza estava só no equilíbrio certo dos espaços e dos volumes e na nudez da cal e da pedra.
Mas dentro já qualquer coisa rompia a harmonia. Móveis pomposos, falsos e doirados, tinham sido acrescentados às antigas mobílias escuras. Um estranho novo-riquismo invadia devagar a antiga, simples e austera nobreza. Um excesso de tapetes escondia a doce madeira do chão. Cortinas complicadas injuriavam o brilho frio do azulejo e a casta cal das paredes.
E sobretudo — ai!, sobretudo — os retratos do Dono e da Dona da Casa, rosados e estilizados, sentados num cadeirão torcido, ao lado dum jarrão da China, contrastavam amargamente com os retratos secos e sombrios dos antepassados. Mas o Dono da Casa não dava por este contraste e gostava de se ver, rosado como um fiambre e com as mãos afiladas até à maravilha, ao lado dos seus avós. Ali estavam quase todos: Aquele que fora ferido em cinco batalhas, aquele que navegara até ao fim do mundo e morrera de escorbuto, o que naufragara no Índico, o que fora denunciado e torturado, o que morrera preso, o que morrera no exílio. Ali estavam quase todos: aquele que perdera um olho em Ceuta, aquele que perdera um braço em Diu, aquele que perdera a cabeça degolado pelos Filipes. Ali estavam quase todos em seus sombrios retratos, ao lado do Dono da Casa que nunca perdera nada.
E quando o Dono da Casa passava com as visitas em frente dos retratos explicava:
— É costume na minha família cada nova geração deixar aqui o seu retrato. Por isso já aqui está o meu. Gosto de continuar as tradições.
Estas exibições dos retratos divertiam profundamente um parente afastado do Dono da Casa que toda a gente na família tratava por primo Pedro.
Este primo Pedro era o mais legítimo representante da nobreza da província e o mais arruinado. Seu avô, seu pai e ele próprio tinham vendido lentamente casas, campos e quintas ao avô e ao pai do Dono da Casa. E também os quadros ali expostos tinham mudado de proprietário juntamente com as casas e com as quintas. Os quadros, porém, além de mudarem de proprietário, tinham mudado também de descendência.
Mas o primo Pedro não precisava de retratos: ele próprio com seu ar austero e seco era igual a um retrato. Formava nisto grande contraste com o Dono da Casa, que era moreno, encorpado e corado, com grossas mãos e dedos ávidos e curtos.
A ruína dos homens como o primo Pedro, seu pai e seu avô parece sempre um pouco inexplicável. Eles não desperdiçam só os seus bens mas também os seus dons. As suas qualidades não encontram forma de realização. É como se a relação entre eles e a vida estivesse quebrada. Em que tinham ocupado os seus dias, o seu espírito, a sua coragem? Que renúncia os conduzia? Que desencontro os dominava?
O primo Pedro tinha a sensibilidade certa como a sensibilidade dum artista, tinha a inteligência dum inventor e o espírito de justiça dum revolucionário. Mas em toda a sua vida nada fizera. Seria por culpa dele ou seria por culpa do círculo que o rodeava? Seria porque a imagem do Dono da Casa, as imagens dos numerosos donos das casas, o faziam recuar com náusea em frente de todas as vitórias? Ou seria ele um espírito tecido de desilusão, descrença e ironia? Ou seria que a sua rejeição significava uma vontade de despojamento, uma renúncia quase metafísica?
O Dono da Casa não se preocupava com estes problemas, que aliás não lhe diziam respeito: para ele, aqueles seus parentes eram apenas falhados decorativos, simpáticos e bem-educados. Tinha muito maior consideração por si próprio e pelos seus, gente capaz de conservar e aumentar a sua fortuna e a sua posição.
De facto o avô do Dono da Casa casara com a filha dum negreiro e o seu pai com a filha dum agiota. Daí viera um grande acréscimo da riqueza da família, riqueza que agora permitia ao Dono da Casa manter estreitas relações com financeiros dominantes e fazer parte de vários conselhos de administração. Enquanto isto se passava, o avô do primo Pedro tinha casado, escandalizando a província, com uma actriz da época romântica e o seu pai casara com uma parente tão arruinada como ele. Quanto ao primo Pedro, nem tinha casado. Alto e magro, caminhava sozinho entre paisagens e penumbras.
Mas apesar de tudo isto o Dono da Casa fazia grande gosto nesse parentesco que provava a sua boa genealogia. Ter o primo Pedro a jantar dava-lhe sempre a sensação de ter um dos personagens da galeria dos retratos sentado à sua mesa.
Porém hoje não o convidara. Pois o primo Pedro tinha opiniões subversivas: defendia a democracia, a liberdade de imprensa, o direito à greve e costumava citar o catecismo dizendo que não pagar o justo salário a quem trabalha é um pecado que brada aos céus. Isto levava o Dono da Casa a suspeitar que ele fosse comunista. E também o levava a compreender que não convinha convidá-lo para o jantar do Bispo: de facto era evidente que o primo Pedro tomaria a defesa do Padre de Varzim.
Ora o Dono da Casa, com o seu sentido prático, tão perfeito que era quase sinistro, combinara aquela reunião com toda a prudência: só tinha convidado gente discreta e segura, com cujo apoio, concordância e silêncio podia contar inteiramente.
Agora já passava das oito horas: a chuva batia musical nos vidros, mas dentro da sala reinavam a luz e o calor.
E de pé entre os seus convidados inócuos, alheio às conversas, encostado à pedra da lareira, onde ardia devagar a cepa torcida da vinha, o Dono da Casa pensava na finalidade daquele jantar: pedir ao Bispo que mudasse o Padre de Varzim para outra freguesia. Calculava as palavras e media as razões. Não queria que o seu pedido parecesse mesquinho ou vingativo.
Queria explicar claramente que o padre novo era um perigo para a ordem social, aquela ordem que ele, dono dos campos, dos pomares, dos pinhais e das vinhas, no centro do jardim bem podado, bem plantado e bem varrido, no centro da casa antiga bem tratada, bem caiada e bem encerada, no centro das pratas herdadas e das pratas compradas, no centro dos móveis velhos e dos tapetes novos, representava.
Mas — apesar de tão poderosas razões — o pedido era difícil de fazer.
Entretanto, no seu carro, o Bispo vinha a caminho. Os faróis iluminavam serras, bermas, matas, casebres e, de longe a longe, portões de quintas.
No céu encoberto por grossas nuvens de chuva não se via uma única estrela. Era uma noite totalmente escura. Na lama da estrada o carro às vezes derrapava.
O vento desordenado sacudia os ramos das árvores e os pensamentos cruzavam-se na cabeça do Bispo.
Pedir é uma coisa difícil. E tanto mais difícil quanto mais aquele a quem se pede é rico e poderoso. Mas a quem havia ele de pedir senão aos ricos e poderosos?
De facto, o Bispo tinha um pedido a fazer ao Dono da Casa. Fora mesmo por isso que aceitara aquele convite.
O tecto da mais bela igreja da sua diocese tombava em ruínas. Era uma igreja do séc. XVII, célebre em toda a província, e que fora mandada construir justamente por um antepassado do Dono da Casa. Pois nos tempos antigos, quando um homem poderoso se achava doente ou tinha a consciência pesada, fazia a promessa de mandar construir uma igreja para dar paz ao corpo e à alma. Mas agora há remédios para todas as doenças e argumentos para todas as consciências. Agora os «ricos homens» já não mandam erguer igrejas em honra de Nossa Senhora da Esperança. Agora a doença já não é igual para pobres e ricos. Agora com regime, análises, radiografias, clínicas, curas de sono e vitaminas, um homem rico tem a saúde quase assegurada. E agora as certezas burguesas varreram a inquietação e tornaram inútil a esperança.
Por isso o Bispo organizara em vão uma lista entre as personalidades eminentes da cidade. A piedade dos fiéis não chegava ao tecto. O produto do peditório mal dera para restaurar o altar-mor. E a Igreja da Esperança continuava em ruínas.
Fora assim que o Bispo se resolvera a dirigir-se ao Dono da Casa para lhe pedir os cem contos que faltavam para arranjar o tecto. Mas era duro para ele ter de pedir tanto dinheiro. É verdade que o Dono da Casa era um homem virtuoso. Mas quem pode confiar na generosidade dum homem virtuoso? Os homens virtuosos são sensatos e prudentes, e a generosidade, sendo a virtude daqueles que dão aquilo que lhes faz falta, é em si mesma uma coisa insensata, contrária aos hábitos dos homens prudentes. Generosos são só os loucos ou os santos. Por isso o Bispo, enquanto a noite corria a seu lado, abanou lentamente a cabeça duvidando da eficácia do seu pedido.
Lembrou-se porém que o Dono da Casa, sendo, como os antigos fariseus, um homem oficialmente virtuoso, deveria também ser um homem vaidoso. Pois a sua longa experiência lhe ensinara que os homens virtuosos são geralmente vaidosos em extremo. Cultivam com cuidado a sua boa fama, que querem esplêndida e conhecida. E sem dúvida o Dono da Casa, tão cioso das tradições da sua família, não seria indiferente ao facto da Igreja da Esperança — agora em ruínas — ter sido três séculos atrás construída por um antepassado seu. Talvez a vaidade do Dono da Casa valesse ao tecto da igreja.
O Bispo estava velho e cansado do mundo. E enquanto os faróis iluminavam ao longo das curvas da serra pensou:
— É triste estar a confiar na vaidade dos homens. E apeteceu-lhe de repente não fazer o pedido.
Mas o Diabo que espreita a ocasião resolveu intervir.
Daí a instantes o Bispo chegava à casa. O automóvel atravessou o portão e os faróis iluminaram de frente a bela escada de granito. O carro deu meia volta e a luz dos faróis correu ao longo da fachada branca, esculpindo o desenho das janelas.
E mais uma vez o coração do Bispo se comoveu em frente da beleza pura e antiga das paredes e das pedras.
Chovia. Um criado desceu com um guarda-chuva. O Bispo apeou-se e, lentamente, pesadamente, apoiando as mãos no corrimão de granito coberto de musgo, subiu a escada e penetrou no interior quente e iluminado.
O Dono e a Dona da Casa já o esperavam na grande entrada vazia, onde os azulejos azuis contavam, com muitos detalhes realistas, histórias de idílicas caçadas irreais, com caçadores e veados, arvoredos e aves. Depois da saudação da praxe, dirigiram-se os três para a sala. Interromperam-se as conversas e levantaram-se os convidados para virem falar ao Bispo.
Mas mal terminaram os cumprimentos, ouviu-se um grande estrondo lá fora.
Houve então um pequeno momento de confusão. Correram pessoas para as janelas e viram no pátio iluminado um grande automóvel preto e sumptuoso esbarrado contra o pilar esquerdo do portão.
Isto causou grande sensação. Houve exclamações e perguntas. Todos eram de opinião de que o carro devia ter derrapado na lama e todos diziam:
— É preciso ver se há alguém ferido.
Mas abriu-se a porta da frente do carro e por ela saiu um chauffeur que abriu a porta de trás.
E pela porta de trás saiu um homem alto e direito, com um sobretudo escuro, chapéu de abas reviradas e cara de pessoa importante.
Chovia cada vez mais, mas o homem, sem pressa e sem demora, olhou em sua frente e atravessou o pátio pausadamente, como se a chuva não o molhasse.
Mas já o criado do guarda-chuva descia a escada a correr e já o Dono da Casa se precipitava para a entrada.
E o seu braço, mal o vulto do desconhecido se desenhou no lumiar da porta, fez um largo gesto de acolhimento.
O desconhecido disse o seu nome. Um nome que foi ouvido com prazer. Era o nome dum homem importantíssimo.
— O meu carro derrapou na estrada — disse o Homem Importantíssimo — e esbarrou contra o seu portão.
O Dono da Casa deu imediatamente ordens para remediar o desastre. Mandou entrar o carro para dentro do pátio e mandou que telefonassem para uma garagem da cidade próxima para que viesse de lá um mecânico para reparar a avaria. Mas a cidade ficava a mais de meia hora de distância. E por isso o Homem Importantíssimo foi convidado para jantar.
O novo convidado agradou logo a toda a gente. Era um homem moreno, alto, mais depressa magro do que gordo. Tinha a idade indefinível dos homens de negócios que estão no auge da sua carreira. Não era velho, mas parecia nunca ter sido novo.
— É muito simpático — murmurou a prima Ana à prima Mariana.
— Muito — respondeu a prima Mariana.
Só o filho do Dono da Casa não gostava do novo convidado. Ele reparara que a sombra daquele homem era enorme e enchia os tectos, gesticulando como um grande polvo. Mas isso era uma coisa que só a criança vira.
E, quando o Homem Importantíssimo lhe perguntou como se chamava, ele respondeu sério:
— Chamo-me João. E depois perguntou:
— Por que é que a sua sombra é tão grande?
O convidado não respondeu à pergunta da criança. Riu e perguntou:
— Quantos anos tens?
— Nove.
— Ainda és muito novo.
João tornou a olhar no tecto a sombra desmedida. Depois encarou de novo o homem e disse:
— Não gosto de si.
O convidado riu mais uma vez e tornou:
— Ainda és muito novo. Quando cresceres talvez sejas meu amigo.
A presença do Homem Importantíssimo deu ao jantar uma grande animação. Ele era o centro das atenções e da conversa e as suas opiniões sensatas produziam o melhor efeito. E quando, já no fim do jantar, a conversa se concentrou nos problemas deste tempo, todos o ouviram suspensos.
— Este tempo — disse o Homem Importante — é um tempo de crise: estamos dominados pelo materialismo. Até nos campos, onde só devia reinar a espiritualidade, ouvimos constantemente falar de problemas materiais. Shakespeare, Camões, Dante falaram dos problemas da alma humana. Hoje os poetas discutem os salários dos operários e o nível de vida dos países. Ora o homem não é só matéria: é espírito também. Mas o nosso tempo só vê os problemas materiais. É um tempo de revolta. Os homens não querem aceitar. Paciência e resignação são palavras que perderam o sentido. O homem deste tempo quer que o reino de Deus seja deste mundo. É o pecado da revolta. Ora é grave que este espírito esteja presente na arte, na literatura, na ciência, na filosofia e nos jornais. Mas o mais grave de tudo, aquilo que verdadeiramente é motivo de escândalo, é vermos que o espírito de materialismo e de revolta se infiltra não só entre os católicos, mas até entre os próprios padres.
— A Igreja — atalhou o Bispo — não pode desinteressar-se do problema social.
— De acordo, de acordo — continuou o Homem Importante. — Eu conheço bem a doutrina da Igreja. A Igreja está no mundo e não pode desinteressar-se do mundo. Mas a missão da Igreja é transcendente: compete-lhe guiar o homem para o seu destino eterno. «Dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus» — estas foram as palavras de Cristo num país ocupado. Não compete à Igreja empenhar-se na solução dos problemas materiais, solução aliás sempre imperfeita, transitória e duvidosa.
— O mandamento da caridade é muito claro — disse o Bispo.
— Mas pode ser interpretado de muitas maneiras — continuou o Homem Importante. — E creio que muitos hoje em dia o interpretam mal: a caridade que conhecem é só material. Dir-se-ia que o homem vive só de pão. Veja o que se passou com os padres operários. Mas, mesmo sem irmos tão longe, já vemos entre nós cristãos e até padres que falam como comunistas.
— Isso é verdade! — atalhou o Dono da Casa, que se lembrava do Abade de Varzim e exultava com o rumo que a conversa ia seguindo.
Mas já o Homem Importante continuava o seu discurso:
— Este tempo só põe a sua esperança na solução dos problemas materiais. Triste esperança. Vi hoje um espectáculo que me encheu de melancolia. Um espectáculo simbólico. Passei perto duma igreja, que se chama Igreja de Nossa Senhora da Esperança. É uma bela obra do séc. XVII. Mas está em ruínas. Os católicos de agora discutem os problemas da habitação mas deixam cair em ruínas a casa de Deus. Isto, Senhor Bispo, vi eu hoje na sua diocese.
O Bispo corou como um culpado e respondeu:
— É verdade, é verdade. A Igreja da Esperança está em ruínas. Acredite que é uma das minhas grandes preocupações. Preciso de arranjar um remédio. Mas para isso terei de contar com a ajuda daqueles que realmente me podem ajudar.
— De facto, de facto — disse o Homem Importante. — Devemos a todo o custo conservar a herança do passado. A desordem reina no Mundo. Mas aqui, no nosso país, a ordem consegue ainda vencer a desordem.
— Isso é verdade! — disse a prima Conceição.
A prima Conceição estava sentada ao lado do Homem Importante.
Estava maravilhada. O seu coração acolhia com entusiasmo cada palavra que ele dizia. Ela tinha sessenta anos, era viúva e a maior proprietária da região. A sua piedade tinha um carácter combativo, mas o seu verdadeiro Evangelho era o Diário de Notícias. Não tinha filhos e era a organizadora oficial das festas de caridade. O seu nome vinha à cabeça das listas de todas as comissões de beneficência. E era a presidente da obra dos tricots. Uma vez por semana as benfeitoras dessa obra reuniam-se em casa da prima Conceição, e, enquanto falavam do próximo e faziam tricots para os pobres, a tarde corria-lhes leve, apenas interrompida por um chá tão abundante que teria chegado para alimentar durante uma semana os nove filhos esfaimados do Pedro da Serra.
A prima Conceição começou a explicar ao Homem Importante o que era a obra transcendente dos tricots. O Homem Importante aprovava. A conversa era amena.
O Dono da Casa sentia-se feliz. O discurso do novo convidado viera ao seu encontro.
As palavras que ele dissera eram exactamente as palavras que ele precisava de ouvir naquele momento; agora já não sentia hesitações, nem dúvidas, nem escrúpulos. Agora a sua decisão estava tomada: pediria ao Bispo no fim do jantar que mudasse para outra freguesia o Abade de Varzim.
E, contente, com a alma em paz, com a mente liberta de incertezas, ele olhou feliz em sua roda.
A cepa da vinha ardia no fogão, a luz eléctrica presa às molduras iluminava as perdizes, as uvas e os limões das naturezas mortas, as velas brilhavam na mesa e a penumbra enrolava-se nos cantos altos do tecto. O Dono da Casa gostava de estar à mesa com visitas. Nada lhe agradava mais do que dar de comer a quem não tem fome. Sentia-se reinar sobre as loiças e sobre os convidados. E nunca se sentira tão feliz como naquele dia. Sólido era o peso dos talheres de prata. Sólido era o seu reino. O Abade de Varzim era uma pobre sombra, um fantasma perdido entre pedintes e fragas, irreal e abstracto como uma ideia que não é deste mundo.
O jantar estava a chegar ao fim. A conversa agora era geral e subira meio-tom. Os criados davam muitas voltas à mesa.
Um pouco entontecido com a rapidez das palavras, o Bispo olhou a penumbra do tecto. Depois, baixou o olhar e viu em sua frente o pão e o vinho pousados sobre a mesa.
A seguir ao jantar, o Dono da Casa conduziu o Bispo e o Homem Importante para uma pequena sala, onde se sentaram os três e tomaram café.
O Homem Importante falou novamente na Igreja de Nossa Senhora da Esperança. O Bispo contou que a igreja tinha sido construída por um antepassado do Dono da Casa e expôs o problema do tecto. O Homem Importante ofereceu imediatamente cinquenta contos, e o Dono da Casa ofereceu os outros cinquenta contos. Depois o Dono da Casa expôs ao Bispo o problema do Padre de Varzim. O Homem Importante apoiou as razões do Dono da Casa. O Bispo concordou que a atitude do padre novo na questão do caseiro fora uma atitude imprudente. O Dono da Casa continuou a acusação e o Homem Importante continuou a argumentação. O Bispo prometeu que mudaria o pároco da aldeia para outro lugar.
O Dono da Casa entregou um cheque e o Homem Importante entregou outro cheque.
O Abade de Varzim tinha sido vendido por um tecto.
Ninguém falou em troca nem em venda. Ninguém disse palavras chocantes. Mas quando se levantaram os três e se dirigiram para junto dos outros convidados para a sala grande, o espírito do Bispo estava pesado de confusão. Ele era como um homem que, envolvido num negócio que não entende bem e convencido por um hábil advogado, compra o que não quer comprar e vende o que não quer vender.
E Deus no Céu teve dó daquele Bispo porque ele estava só e perdido e não sabia lutar contra os hábeis discursos dos donos do Mundo.
Um relógio na parede bateu dez horas e um pobre bateu duas pancadas na porta da cozinha.
Foi a cozinheira Gertrudes quem abriu. Olhou o homem sem entusiasmo. Não o conhecia, mas nem era preciso perguntar-lhe quem era: era mais um pobre.
A cozinheira teve vontade de lhe dizer que ele vinha tarde demais. O jantar dera-lhe muito trabalho e ainda lhe faltava lavar a loiça e arrumar a cozinha. Mas ela tinha ordem de dar de comer a qualquer pobre que batesse à porta enquanto houvesse luz acesa na casa.
Por isso disse:
— Entre.
E acrescentou:
— Não suje o chão.
Pedido impossível de satisfazer. Os trapos encharcados do mendigo escorriam água. Poisados no chão de tijoleira, os seus pés descalços estavam molhados e cobertos de lama.
— Boa noite — disse o homem.
— Boa noite — respondeu Joana, a criada velha. Joana estava sentada junto ao lume. Tinha um xaile preto pelas costas e os seus olhos eram dum azul sem cor, como se o tempo os tivesse desbotado.
Gertrudes não respondeu às boas-noites. Olhava ostensivamente a água que escorria dos farrapos do mendigo.
— Venha secar-se aqui ao pé do lume — disse Joana. Irada, Gertrudes virou-se para a criada velha.
— Você não vê que ele me vai sujar a cozinha toda, que me vai encher o chão todo com pegadas de lama?
Depois voltou-se para o homem, apontou com o dedo o banco que estava em frente da mesa de pedra dos pobres e disse:
— O seu lugar é ali.
O homem dirigiu-se para o lugar que a cozinheira indicara. Cada um dos seus passos ia ficando desenhado no tijolo do chão.
Gertrudes poisou um olhar cauteloso nos talheres e nas travessas de prata que estavam amontoados na banca de pedra rosada. Depois, vendo que entre o mendigo e as pratas havia uma distância suficiente, disse:
— Sente-se.
O homem sentou-se e ela acrescentou:
— Vou aquecer-lhe a sopa.
Pegou num grosso panelão que estava posto de lado e colocou-o em cima do lume do fogão.
Em seguida cortou um pedaço de pão, encheu um copo com vinho e poisou o pão e o vinho defronte do homem.
Então ele disse:
— Preciso de falar com o Dono da Casa.
— A esmola é ao sábado — respondeu Gertrudes.
— Mas eu preciso de falar hoje com o Dono da Casa — tornou o homem.
— Hoje não é sábado. E além de não ser sábado é tarde. E além de ser tarde temos visitas. Hoje temos cá o Bispo e além do Bispo temos um senhor ainda mais importante do que o Bispo.
— Mas eu preciso de falar esta noite com o Dono da Casa. É importante.
— As coisas importantes são para as pessoas importantes — respondeu Gertrudes. — Tenha juízo, homem. Você quer que o Dono da Casa venha aqui, agora, falar consigo? Nem pense nisso!
Lá fora a tempestade parecia aumentar.
A porta que dava para o corredor abriu-se e entraram o criado e a criada de sala. O criado trazia uma bandeja com xícaras de café, a criada uma bandeja com copos.
— Boa noite — disse o homem.
— Boa noite — responderam eles.
Poisaram as bandejas e a cozinheira começou logo a lavar os copos.
— Bem — disse o criado, olhando o pobre —, temos muitas visitas hoje. Visitas na sala e visitas na cozinha.
O homem pôs-se em pé, avançou um passo para o criado e disse:
— Oiça...
— Não saia de onde está — atalhou a cozinheira. — Olhe que me suja a cozinha toda.
O homem ficou onde estava. Mas, voltado para o criado, continuou:
— Oiça se faz favor, oiça! Preciso de falar com o Dono da Casa. Vá à sala e peça-lhe que venha aqui.
— Eu já lhe disse — explicou Gertrudes ao criado — que hoje não é sábado e que temos visitas. Mas ele não compreende uma coisa tão simples.
— Homem — disse o criado, aproximando-se do pobre —, você já viu um senhor deixar as visitas na sala para vir à cozinha falar com um mendigo? Tenha paciência, não pode ser. O mundo é como é. Temos que ter paciência.
O homem voltou-se para a criada de sala e pediu:
— Oiça, peço-lhe a si: vá lá acima e diga ao Dono da Casa que preciso de falar com ele hoje mesmo.
— Tenho ordem de nunca ir dar recados à sala quando há visitas. Cada coisa tem o seu lugar.
Ao longe começava a trovejar.
Gertrudes tirou um prato do armário, mergulhou a concha no panelão, deitou a sopa no prato.
Depois aproximou-se da mesa dos pobres, poisou o prato e disse ao homem:
— Sente-se e coma.
O homem sentou-se com ar de cansaço, mas não começou a comer.
A porta do corredor tornou a abrir-se e entrou uma das criadas de quartos.
Vinha mal-humorada.
O homem disse:
— Boa noite.
Ela respondeu por cima dos ombros e perguntou à criada de mesa:
— Onde pôs você as chaves do armário da roupa?
— Ficaram no quarto de engomar — respondeu a outra criada.
A criada de quartos suspirou, sentou-se num banco e resmungou:
— A esta hora ainda me aparecem trabalhos.
— Então que há? — perguntou a cozinheira.
— Há que convidaram o hóspede novo, o Senhor Importantíssimo, para dormir cá. E a esta hora da noite ainda tenho de ir arranjar o quarto e fazer a cama.
— Deve realmente ser uma pessoa importante — comentou Gertrudes.
— Isso vê-se que é — disse a criada de mesa. — Quando fala parece dono de tudo.
— Oiça, se faz favor — disse o pobre, levantando-se e avançando um passo em direcção à criada de quartos.
Mas a cozinheira interrompeu-o outra vez.
— Fique onde está, não me suje mais a cozinha.
Depois voltou-se para a criada de quartos e tornou a explicar:
— Quer falar, hoje, agora, com o Dono da Casa. Já lhe expliquei que é impossível, mas não entende.
— Oiça! — disse o homem, virado para a criada de quartos. — Oiça o favor que lhe peço: vá você chamar o Dono da Casa.
— Sou criada dos quartos, não tenho ordem de ir à sala dar recados. Isso não é comigo.
A trovoada agora parecia estar perto. Um relâmpago azulou os vidros e o trovão ouviu-se para o lado da serra. Todos se benzeram.
— Ai dos pobres! — disse no seu lugar a velha Joana. — Há sempre uma razão para lhes dizerem que não. Os pobres têm fome e frio mas sobretudo estão sós. Se eu fosse nova ia lá acima pedir por ti. Mas estou velha e já não posso subir a escada.
— Se você lá fosse ninguém fazia caso — disse duramente Gertrudes.
E voltada para o homem continuou:
— Escusa de pedir mais. Já viu que ninguém o atende.
Um novo relâmpago mostrou lá fora o jardim lívido e transfigurado e logo um trovão se ouviu, estremecendo a casa desde os seus fundamentos.
A luz eléctrica apagou-se. Os criados benzeram-se na escuridão onde apenas brilhavam as brasas do lume.
Rapidamente Gertrudes riscou um fósforo e acendeu duas velas.
— Dê-me uma — disse o criado —, tenho de ir lá acima depressa acender os castiçais.
A cozinheira deu-lhe uma das velas e o criado saiu seguido pela criada de sala e pela criada de quartos.
Gertrudes tirou dum armário um castiçal pequeno onde espetou a vela. Depois colocou o castiçal em cima da grande mesa que estava no meio da cozinha.
A chuva batia desesperadamente nas vidraças. A trovoada era cada vez mais forte. A paisagem azul e fulminada surgia nas janelas e logo desaparecia bebida pela treva. O rolar dos trovões acordava a imensidão.
— Valha-nos Santa Bárbara! — disse a velha Joana. — Temos a trovoada em cima de nós.
Gertrudes abriu uma gaveta.
— Que quer você? — perguntou a velha.
— Vou queimar alecrim. Dizem que é bom — respondeu a cozinheira.
E tirou da gaveta um ramo seco que atirou para o lume. Mas de novo o clarão do relâmpago atravessou os vidros e de novo o trovão fez estremecer a casa.
— Vamos rezar a Magnífica — disse Joana.
— Reze você, que eu não sei: já não são coisas do meu tempo — respondeu Gertrudes.
Então através do bater da chuva e do rolar da tempestade ergueu-se do fundo da cozinha, velha, cansada e trémula a voz da Joana:
A minha alma engrandece ao Senhor.
O meu espírito alegra-se em extremo em Deus meu Salvador.
Pois Ele pôs os olhos na baixeza da sua escrava e de hoje em diante todas a gerações me chamarão bem-aventurada.
Porque me fez, grandes coisas o que é poderoso; e santo é o Seu Nome; E a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre os que O temem.
De súbito a Joana calou-se.
— Acabou? — perguntou Gertrudes.
— Não, não acabou; mas estou velha, esqueci o resto. Porém, do outro canto da cozinha, a voz do homem sentado à mesa dos pobres ergueu-se e continuou:
Ele manifestou o poder do seu braço e dissipou os que no fundo do seu coração formavam altivos pensamentos.
Depôs do trono os poderosos e elevou os humildes.
Encheu de bens os que tinham fome e despediu vazios os que eram ricos.
João, o filho do Dono da Casa, estava no corredor quando a luz se apagou. Tinha acabado de dar as boas-noites a todos na sala e ia para o seu quarto.
Ficou sozinho na escuridão cortada de relâmpagos. Encostado à parede via lá fora surgir da treva um jardim azulado, desconhecido e fantástico. A beleza, o abismo e o clamor da tempestade tinham-no suspenso. Escutou imóvel durante algum tempo. Depois começou a ter medo. Sentiu-se só no meio da tempestade. Quis correr para a sala mas lembrou-se da sombra enorme do hóspede. Então o seu medo cresceu. Não ousava ir, em plena escuridão, ao encontro do convidado desconhecido. Encostou-se mais à parede e gritou. No fundo do corredor apareceu uma luz.
Era o criado António com as velas e as duas criadas. João correu para eles e seguiu-os.
Os criados entraram para a copa que ficava ao lado da sala de jantar.
António acendeu dois grandes castiçais e disse:
— Não me lembro de uma trovoada como esta.
— E eu nem me lembro de um pobre pedinte a querer que o Dono da Casa o venha ver à cozinha — disse a criada de sala.
— O que é que foi? — perguntou João.
— É um pobre que está na cozinha e quer que chamem o seu pai para falar com ele.
— E por que é que não o chamaram?
— Porque tudo tem o seu lugar e a sua ocasião.
— Como é que ele é?
— É como os outros pobres, é como a gente de Varzim.
— Dá-me uma vela — disse João —, eu quero ir vê-lo.
A criada deu-lhe um castiçal com uma vela e João saiu. Quando abriu a porta da cozinha, viu, sentado à mesa dos pobres, um homem de rosto jovem e cansado. Era igual à gente de Varzim, tal como dissera Júlia, a criada de sala. Pareceu a João que o conhecia há muito tempo.
Erguendo a vela, caminhou para o homem e, quando chegou junto dele, disse baixo e devagar:
— Boa noite.
— Boa noite — respondeu o homem.
Houve um momento de silêncio. A trovoada parecia ter-se afastado e acabara de chover.
— Acabou a trovoada — disse a criança.
— Acabou.
— És tu o homem que mandou chamar o meu pai?
— Sou eu.
— Queres ver o meu pai?
— Quero que o teu pai me veja.
— Como é que te chamas?
— Diz ao teu pai que venho da parte do Padre de Varzim.
De novo João olhou o homem em silêncio. Ergueu um pouco a vela para o ver melhor. Disse:
— Vou chamar o meu pai.
Quando o João chegou ao alto da escada a luz eléctrica acendeu-se de repente. O rapazinho soprou a vela, pousou o castiçal numa mesa e dirigiu-se para a sala.
Entrou e ergueu os olhos: a sombra do Senhor Importante continuava a trepar pelas paredes e a ocupar todo o tecto. Dir-se-ia que ela dominava inteiramente aquela reunião de pessoas.
E ao canto do fogão, gozando o doce calor da cepa da vinha, o dono da sombra desmedida conversava com o Bispo e com o Dono da Casa.
— Pai — disse João —, na cozinha está um pobre que quer falar consigo.
— Agora, não. Diz-lhe que venha no sábado.
— Mas tem que ser hoje. É muito importante.
— Por que é que é importante?
João não sabia responder.
— Por que não o vai ver? — perguntou o Bispo ao Dono da Casa. — Um pobre vem sempre da parte de Deus.
— O homem que está lá em baixo — explicou João — diz que vem da parte do Padre de Varzim.
O Dono da Casa ficou rubro. Fitou o filho e disse, pronunciando claramente e secamente as palavras:
— Diz-lhe que o Padre de Varzim já sabe que só recebo os pobres ao sábado. O homem que venha no sábado.
— Pai — tornou a pedir João — venha vê-lo agora.
— Não — respondeu o Dono da Casa. João saiu da sala e voltou à cozinha. Durante um momento fitou o pobre em silêncio.
A chuva tinha cessado. Só se ouvia o barulho de Gertrudes a lavar panelas. Joana no canto fitava o lume com o olhar ausente e desbotado.
Por fim João disse:
— O meu pai não quis vir. Eu pedi, mas ele não quis vir.
— Obrigado — disse o homem.
— Quando te torno a ver? — perguntou João.
— Vem ver-me a Varzim — respondeu o homem. Depois levantou-se, deu as boas-noites e saiu. João viu-o desaparecer na escuridão, enquanto pela porta aberta entrava um perfume verde de jardim molhado.
Gertrudes aproximou-se da mesa dos pobres para levantar o copo, o talher e o prato.
— Olhem — exclamou ela —, o homem não tocou na comida!
— Ah! — disse a velha Joana, levantando a cabeça como se acordasse de repente —, também Deus não recebeu as ofertas de Caim.
— Que história é essa? — perguntou a cozinheira.
— É uma história do princípio do Mundo — disse a velha. — É a história dos filhos de Adão e Eva. Chamavam-se Caim e Abel. E Caim matou Abel, seu irmão.
III
Meia hora depois o Bispo, dentro do seu automóvel, rolava na estrada. Ia triste e com a alma pesada. Pensava no Abade de Varzim.
O Dono da Casa e o Homem Importante tinham-no entontecido com as suas boas maneiras e os seus argumentos lógicos. Ele estava velho. Já não tinha inteligência nem força para lutar. Estava cansado do mundo. Os seus amigos eram os seus inimigos; e os seus inimigos eram mais fortes do que ele. A sua mente estava obscurecida. Sentia-se só entre os homens e Deus parecia-lhe infinitamente oculto e velado. E a estrada que os faróis arrancavam das trevas, desolada entre fileiras de árvores despidas, coberta de lama, despojada pelo Inverno, escurecida pela noite, pareceu-lhe a própria imagem da sua alma.
O carro saiu das curvas da serra e entrou numa recta.
Ao longe os faróis iluminaram um vulto que seguia pela beira da estrada. O vulto dum homem que caminhava sozinho.
Quando o carro passou junto dele, o Bispo disse ao chauffeur:
— Pare. — Vamos levar este homem.
O Bispo abriu o vidro e chamou o mendigo:
— Para onde vais?
O homem aproximou-se e respondeu:
— Vou para casa do Padre de Varzim.
— Ah! Vens da Casa Grande?
— Venho.
— És o homem que pediu para falar ao Dono da Casa?
— Sou.
O Bispo olhou-o. Era um homem igual a muitos outros. Lembrava a gente de Varzim. Tinha lama nos trapos e a escrita da fome na cara. Nas mãos havia um gesto de paciência. Um gesto muito antigo de paciência. E de repente pareceu ao velho Bispo que todo o abandono do mundo, todo o sofrimento, toda a solidão, o olhavam de frente no rosto daquele homem. Coisa difícil de olhar de frente.
Por isso o Bispo baixou a cabeça enquanto dizia:
— Varzim é longe e o caminho para lá é difícil. O chão está transformado em lama e a enxurrada encheu de pedregulhos os carreiros da serra. Vem comigo e fica esta noite em minha casa.
O mendigo não respondeu.
O Bispo levantou a cabeça, mas na sua frente viu só a noite.
— Homem, onde estás? — chamou ele. Mas ninguém respondeu.
Então o velho prelado saiu do seu carro. Olhou e escutou: na estrada e nos campos não avistou nenhum vulto. Nem ouviu o menor barulho de passos. Mandou ao chauffeur que procurasse o mendigo. Mas o chauffeur também não o encontrou. Os pés do Bispo estavam agora enterrados na lama. A Lua surgiu entre as nuvens. Mas o luar mostrava apenas um descampado vazio, onde ninguém se afastava. O silêncio estava atento e suspenso.
O Bispo tapou a cara com as mãos. Agora tentava reconhecer dentro de si mesmo o homem que encontrara. Assim esteve algum tempo. Depois destapou a cara e murmurou:
— Aquilo que eu fiz tem de ser desfeito.
Subiu outra vez para dentro do carro e disse ao chauffeur:
— Temos de voltar para trás.
Quando chegaram à Casa Grande as luzes ainda estavam acesas. Mas o barulho do «claxon» ao portão, àquela hora, causou grande alvoroço.
Um criado desceu a correr a escada e veio abrir. A chave deu penosamente a volta na fechadura e as portas de ferro gemeram nos seus gonzos. O automóvel do Bispo entrou, atravessou o pátio e veio parar em frente das escadas de pedra.
Curiosa de saber quem seria aquela visita do meio da noite, a Dona da Casa espreitou entre as cortinas através do vidro.
— É outra vez o Bispo! — exclamou ela, espantada. E foi prevenir o marido.
Trôpego, trôpego, o velho Bispo subia a escada. Subia com pesados passos, costas curvadas e a mão trémula apoiada ao corrimão de pedra e musgo. Trazia os sapatos sujos de lama.
Quando chegou ao cimo, o marido e a mulher já o esperavam na entrada.
O brilho da noite fazia luzir os azulejos azuis.
— Preciso de lhe falar — disse o Bispo ao Dono da Casa.
— Está frio aqui. E melhor entrar para a sala.
Na sala as cadeiras pareciam tesas e espantadas e o brilho da hora tardia boiava nos espelhos subitamente acordados pela luz. O Bispo não se quis sentar e ficou de pé junto duma mesa.
— Não vale a pena sentar-me, não me demoro, o que tenho a dizer diz-se depressa.
Mas não sabia como começar.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou o Dono da Casa.
— Aconteceu.
Houve um novo silêncio. Depois, devagar, o Bispo disse:
— Não sei contar o que vi. Hoje, esta noite, foi acusado um homem justo. Mas o próprio Deus veio ser sua testemunha.
— Não compreendo — disse o Dono da Casa.
— Hoje, aqui, o padre novo de Varzim foi acusado.
— E Deus desceu do céu para testemunhar por ele?
— É verdade.
— Desculpe, senhor Bispo, desculpe que eu não posso acreditar.
O Bispo olhou o Dono da Casa, o dono dos quadros, das pratas, dos campos, das vinhas, dos pinhais e da serra. E viu que era como se todas as coisas que aquele homem possuía tivessem formado à roda dele um espesso muro que o separava da realidade. Ele estava fechado na certeza dos seus direitos.
E, com tristeza, o Bispo respondeu:
— Eu sei que não pode acreditar.
Depois, devagar, continuou:
— O padre de Varzim não foi só acusado. Foi também vendido. Vendido pelo telhado de uma igreja. Da Igreja da Senhora da Esperança.
O Dono da Casa quase não acreditou nas palavras que ouvia. Pois ele não tinha nenhuma intenção de se confessar. Era mesmo como se ele tivesse perdido ou rejeitado há muito tempo a possibilidade de se reconhecer a si próprio. Por isso respondeu seco, dominando a sua cólera:
— Não compreendo porque é que disse vendido. Não houve nenhuma venda. Dei uma esmola e fiz, de acordo com a minha consciência, um pedido.
— Mas eu — respondeu o Bispo, confessando-se amargamente — prometi mudar para outro lugar o padre novo. Fiz uma promessa e recebi dinheiro. Não posso cumprir a promessa e quero entregar a quem mo deu este dinheiro.
E a mão enrugada poisou os dois cheques em cima da mesa.
O Dono da Casa olhou o gesto com um misto de furor, espanto e indignação. O Bispo, aquele prelado tão polido, estava a trair as regras do jogo. Às regras da boa educação respondia com problemas de consciência. Acusava-o a ele, Dono da Casa, de fazer negócios inconfessáveis e confusos. Acusava-o em palavras claras, inconfundíveis. Nem ao menos se exprimia indirectamente e por meio de alusões. E, no fundo da sua alma, o Dono da Casa teve grande vontade de receber o dinheiro e de dar ao Bispo uma resposta crua. Mas lembrou-se que não convinha ter questões com o Bispo, lembrou-se da sua fama, da sua reputação e da boa educação que tinha recebido em pequeno. Por isso conteve-se e disse com alguma pompa:
— Não compreendo. O dinheiro que dei não tem nada a ver com o Padre de Varzim. São duas questões completamente diferentes. Vossa Excelência Reverendíssima está a fazer uma confusão lamentável. Dei uma esmola e nunca torno a receber o que dou. Mas este assunto não pode ser resolvido só por nós os dois. É preciso sabermos qual é a opinião do meu hóspede.
O Dono da Casa tocou pelo criado e mandou-o chamar o Homem Importante.
Mas o criado António percorreu em vão a casa. O Homem Importante, o hóspede imprevisto da noite, tinha desaparecido. Não estava nem no quarto nem nas salas, nem nas escadas, nem nos corredores. O seu carro e o seu chauffeur tinham-se volatilizado, e até o sulco das rodas do seu carro se tinha apagado no saibro molhado do pátio.
Estas notícias perturbaram o Dono da Casa. Deixou a mulher na sala a fazer companhia ao Bispo e foi ele próprio, à frente dos criados, passar uma revista à casa e aos jardins. Subiram ao sótão, desceram à cave, espreitaram no poço, António espreitou atrás das cortinas; Mariana, a criada de quartos, espreitou debaixo da cama. O Dono da Casa espreitou atrás dos arbustos. Mas o desaparecido não apareceu.
Terminada a busca, o Bispo, o Dono e a Dona da Casa, o criado António, Júlia, a criada da sala, e Mariana, a criada dos quartos, reunidos pelo espanto, formaram um círculo na sala, comentando o sucedido. O Dono da Casa pediu ao Bispo que lhe desculpasse a estranheza da situação. Não havia explicação possível. Instalara-se no ar um pesado mal-estar. A Dona da Casa estremecia quando as madeiras estalavam e, lá fora, as sombras do jardim tinham tomado um ar suspeito.
Finalmente, falou o Bispo:
— É tarde. Amanhã pensaremos melhor. O seu hóspede vai com certeza aparecer ou dar alguma notícia. Vou-me retirar. Deixo-lhe aqui os dois cheques.
Mas quando olharam para a mesa só viram um cheque. Era o do Dono da Casa. O outro, o cheque do Homem Importante, tinha desaparecido.
Os presentes olharam-se transtornados. Mãos e olhares percorreram nervosamente a sala à procura do pequeno papel.
— Vê debaixo da mesa — disse a Dona da Casa ao criado.
António pôs-se de gatas e mergulhou de baixo da colcha de seda vermelha que cobria a mesa. Passado um instante, no gesto dum fotógrafo antigo retirando a cabeça dos panos da sua máquina, reapareceu e disse:
— Não está.
— Era nominal ou ao portador? — perguntou o Dono da Casa ao Bispo.
— Não sei, não olhei — confessou o Bispo, atrapalhado. A confusão aumentava.
— Tenho de prevenir o banco — disse o Dono da Casa. — Vossa Excelência Reverendíssima viu que banco era?
— Não, não vi.
A complicação crescia.
Mas o Bispo estava agora muito cansado dos negócios do mundo.
— Vou deixar o assunto nas suas mãos — disse ele ao Dono da Casa. — A noite há-de trazer conselho. E o dia de amanhã deve trazer algum esclarecimento. Vou-me retirar.
Tornou a despedir-se e saiu.
Depois da saída do Bispo, o Dono da Casa pôs os criados à procura do cheque. Levantaram-se os tapetes, as almofadas dos sofás, as revistas que estavam em cima da mesa. Mas, ao fim de meia-hora, o cheque ainda não tinha aparecido.
Finalmente, o patrão disse aos criados:
— Vou-me deitar. Continuem a procurar; o cheque não pode ter desaparecido. Boa noite.
Saiu, e António, Júlia e Mariana olharam-se com desânimo.
— Fiquem vocês à procura aqui, eu vou procurar nos corredores. Talvez o cheque tenha voado com as correntes de ar — disse o criado António.
— Ou talvez o diabo o tenha levado! — disse a criada Júlia.
António deitou um olhar sem esperança ao chão dos corredores e dirigiu-se à cozinha para desabafar com Gertrudes.
— Mas, afinal — perguntou a cozinheira —, quem era este senhor, tão importante?
— Não sei — respondeu o criado —, só sei que parece que entrou o demónio nesta casa.
— Quem sabe! — disse a velha Joana, pondo no lume o seu olhar cansado. — Quem sabe! Talvez ele fosse realmente o Diabo! Nos tempos que correm pode bem ser.
— Nos tempos que correm — disse a cozinheira — já não há Deus nem Diabo. Há só pobres e ricos. E salve-se quem puder.
E, pegando num pano, Gertrudes limpou no chão de tijolo as pegadas do mendigo.
Sophia de Mello Andresen
Contos exemplares
Porto, Figueirinhas, 1997
O toque misterioso do sagrado - Susanna Tamaro
A viagem de automóvel foi uma óptima ideia. Vocês as duas, sozinhas, a viajar por toda a Itália, sem um destino preciso, que depois acabaram por encontrar. Ou melhor, como tu própria escreves: «E provável que aquele lugar nos tenha atraído desde o início, como um íman. Era para lá que devíamos ir, e foi para lá que acabámos por ir, quase sem sabermos. Para as rudes encostas do Monte Sant’Angelo. A minha mãe já tinha ouvido falar, mas eu nem sabia que existia. Nunca simpatizei com os anjos e coisas desse género. No entanto, devo dizer que, ao descer para aquela gruta, senti uma coisa estranha. Uma coisa muito parecida com uma perturbação.»
Que giro! Também lá fui, no Verão passado, com a minha mãe, só que eu fui lá de propósito, para satisfazer um desejo antigo. À medida que nos íamos aproximando, não podia deixar de pensar em Jerusalém. A mesma terra ressequida, as mesmas pedras de calcário branco, as oliveiras, os burros, a mesma longa subida para se chegar ao lugar santo. Se bem te lembras, mal se chega à igreja, tem de se começar a descer, no meio de arcos e curvas, até à famosa gruta cavada na rocha e iluminada pela luz frouxa das velas. A emoção que provoca é difícil de descrever.
As igrejas raramente me fazem sentir tão perturbada. Ou melhor, quanto mais espectaculares e mais repletas de decorações, estátuas, dourados e frescos, mais me afastam do sentido do sagrado. Claro que sou capaz de apreciar a beleza das pinturas e dos frescos, o talento dos artesãos, a riqueza da história que se reflecte naquelas obras, mas é sempre qualquer coisa que faz parte do meu domínio cultural, da minha mente estética e racional, da minha cultura.
As poucas vezes que me emocionei realmente, foi em certas capelas abandonadas na montanha ou no campo. Lembro-me sobretudo de uma: paredes nuas, altar nu, uma simples cruz de madeira, ao fundo. De repente, alguns pássaros entraram por um vidro partido, com palhas no bico, e fizeram o ninho no baixo-relevo da sétima estação da Via Sacra.
As basílicas, as catedrais, as igrejas são sempre projectos concebidos por homens para outros homens, e como tal, apesar da boa vontade dos seus artífices, dificilmente conseguem tocar as camadas mais profundas e mais secretas da nossa alma. E, no entanto, esse «toque» — o toque do sagrado, do mistério — é tão importante para o nosso caminho! E como o diapasão, que permite afinar todo o nosso ser por uma frequência diferente.
Tenta imaginar o coração como um instrumento musical. Há cordas que tocam habitualmente: a corda da tristeza, da alegria, da raiva, da dor, da distância, do enamoramento. E, por fim, há uma, mais escondida e profunda, que costuma ser difícil de descobrir, mas é justamente aquela que, ao vibrar, torna harmónico e potente o som de todas as outras. E essa corda que nos faz deixar de ser um ser-fragmento para sermos um ser-unidade.
A perturbação que sentiste na gruta é, de certa forma, o despertar da tua corda profunda. De repente, sem o teres imaginado antes, viste-te diante do mistério da Presença. Como não estavas preparada, não te defendeste e foi por isso que o espanto te perturbou. Espanto por causa de quem, por causa de quê? Será possível dizer? Não há nada mais inexprimível, mais secreto, do que esses encontros. O que se continua a sentir é o coração a bater ao de leve, a impressão de que, dentro de nós, se levantou um vento, uma força desconhecida, nova, capaz de baralhar as cartas todas.
O fogo e o vento
Lisboa, Editorial Presença, 2002
(Excerto)
sexta-feira, 15 de junho de 2007
Uma Páscoa atribulada - Sydney Taylor
– Então, não te levantas? – perguntou Ella.
Era um dia normal de escola e Sarah costumava ser sempre a primeira a levantar-se.
– Não me sinto bem.
– O que é que tens? Dói-te outra vez a garganta?
– Sim, quando engulo. Também me dói a cabeça e sinto o nariz a arder por dentro.
– Pareces estar muito quente. É melhor chamar a mãe.
A mãe não se mostrou muito preocupada. Já estava habituada a que as filhas ocupassem a “cama dos doentes”, como chamavam ao sofá que estava na cozinha. Das cinco irmãs, era Sarah a que lá passava mais tempo. Nessas alturas, e com a ajuda de uns lençóis, a mãe transformava o sofá em cama, e ia ao quarto buscar as doentes. Henny olhava para Sarah com inveja. Detestava ir à escola e estava sempre à espera de que acontecesse alguma coisa que a impedisse de ir.
– Mãe – disse – enquanto a Sarah estiver doente não vais precisar de ajuda?
– Acho que serias mais um estorvo do que uma ajuda, Henny.
Henny foi para junto de Sarah, no sofá.
– Que sorte! Eu também gostava de ficar doente.
– Só dizes isso porque não sabes como é horrível.
A mãe estava atenta a Sarah. Veio junto dela, pôs-lhe a mão na testa e sentiu-a a escaldar.
– Ella – disse – corre à loja do pai ainda antes de ires para a escola e diz-lhe que chame o Dr. Fuchs.
Mergulhou um pano em água fria, torceu-o, dobrou-o em quatro e pô-lo na testa de Sarah.
Quando as outras saíram, Gertie tentou distrair Sarah, mas ela não reagia.
– Deixa-a dormir – disse a mãe. – É o melhor que pode fazer. Anda, podes ajudar-me a tratar das loiças para o Pesach (refeição ritual da Páscoa hebraica e que celebra a fuga do Egipto.) – É já daqui a uma semana.
Só uma semana e havia ainda tanto que fazer!
Durante a festa da Páscoa, que dura oito dias, não se pode comer pão ou outros alimentos feitos com massa levedada. Nos dias anteriores à Páscoa, as famílias judaicas limpam tudo para eliminar qualquer resto de massa fermentada: até as panelas, sertãs e pratos têm de ser substituídos. Cada família judaica crente tem tanta loiça, que mais parece possuir uma loja de loiças. A família tem de ter dois serviços para uso diário, um para o leite e derivados, e outro para os pratos de carne, e ainda mais dois serviços para o Pesach. Isto para não falar da loiça bonita para os dias de visitas.
Quando as meninas voltaram da escola, o Dr. Fuchs estava em casa. Com a sua voz sonora mas simpática, ordenou a Sarah que deitasse a língua de fora e dissesse “aa”. As irmãs e a mãe estavam à sua volta a ver. Quando acabou o exame, o Dr. Fuchs voltou-se para a mãe:
– Parece escarlatina. O melhor é examinar também as outras meninas.
– Escarlatina! – exclamou a mãe.
Escarlatina significava quarentena e isolamento. Significava também que tinha de cozinhar dietas, provavelmente pratos fermentados, e a Páscoa estava à porta. Como iria conseguir conciliar tudo? Mas não deixou transparecer a sua preocupação na presença das filhas, que já estavam em fila diante do médico para serem examinadas.
Henny foi a primeira. Parecia estar bem de saúde. Gertie e Charlotte não aparentavam ter nada. O médico examinou Ella durante mais tempo e, no final, meneou a cabeça.
– Lamento, mas a pequena também tem escarlatina.
– Já era de esperar – respondeu a mãe calmamente. – Dormem juntas na mesma cama.
– Tem de deitar as duas num quarto separado – disse o Dr. Fuchs à mãe. – E tente manter as outras afastadas. Eu torno a passar amanhã e vejo como é que elas estão. Não tenha medo, que vai conseguir ultrapassar tudo isto. Pense que tem um bom médico!
O Dr. Fuchs riu da sua piada para animar a mãe, pegou na mala e saiu, rindo ainda.
Henny tinha agora uma boa desculpa para ficar afastada da escola, mas não estava nada contente com isso. “Quarentena”, pensava. “Nenhuma das minhas amigas pode aproximar-se de mim.” Também não podia chegar perto das duas irmãs nem passar o dia inteiro a brincar com bebés como Charlotte e Gertie!
Embora exteriormente se mostrasse calma e andasse de um lado para o outro como se nada fosse, a mãe estava preocupada. “Mantenha as doentes afastadas das que estão saudáveis”, ordenara o Dr. Fuchs. O melhor era deixar Ella e Sarah dormir no seu quarto e ficar junto delas. As crianças doentes precisam muitas vezes da mãe durante a noite.
Podiam usar a cama desdobrável que tinham para as emergências. O pai podia dormir no sofá da cozinha ou, se não quisesse, dormia na cama de Ella e de Sarah, no quarto das meninas.
A mãe preparou o quarto que ia ser o das doentes por muitas semanas. Depois, vestiu outra roupa, levou as doentes para a cama e tornou-lhes tudo tão confortável quanto podia. Em seguida, voltou a mudar-se e foi para a cozinha.
– Ouviram todas o que o médico disse – explicou então às filhas que não estavam doentes. – Não podem ir nunca ao quarto onde Ella e Sarah estão. Não quero que fiquem também doentes. Henny, leva esta receita à farmácia, por favor. Tens de esperar até que o remédio esteja pronto para depois o trazeres. Dá um salto ao pai, e diz-lhe que as meninas estão com a febre escarlatina. Charlotte e Gertie, vocês vão ajudar-me a arrumar outra vez os pratos. Por ora, não precisamos deles.
– Mãe – perguntou Charlotte – vamos, mesmo assim, festejar a noite de Seder (Seder (hebreu “Ordem”) Refeição de festa da festa das duas primeiras noites da Páscoa)?
– Claro que sim! – respondeu a mãe.
– A Ella e a Sarah já vão estar boas? – perguntou Gertie.
– Não, acho que não. É claro que já vão estar melhor – acrescentou rapidamente – mas vão ter de continuar de cama.
Nessa noite, a mãe foi acordada por um choro abafado. Despertou imediatamente, como sempre acontecia quando uma das filhas precisava dela, e reconheceu a voz de Sarah.
– Não chores – acalmava-a a mãe – que eu estou à tua beira.
– Enxota-o! Enxota-o! – chorava Sarah.
– Sim – respondeu a mãe. – Já o enxotei.
Não fazia nenhum sentido dizer a uma criança a arder de febre que não havia nada para enxotar.
Ella sentou-se na cama e perguntou:
– Está a delirar, mamã?
– Está. Se calhar teve sonhos maus. Daqui a pouco já se acalma.
– Tive um sonho tão mau! – soluçou Sarah. – Uma coisa estava a crescer cada vez mais e eu não conseguia pará-la. Os meus dedos iam ficando cada vez mais inchados, e a cara também. Pensei que ia rebentar. Fiquei tão assustada que chamei por ti!
– Eu estou aqui, não tenhas medo. Volta a adormecer. Eu sento-me à tua beira e mando tudo embora.
Dito isto, a mãe sentou-se na cama de Sarah, no silêncio da noite, segurando-lhe as mãos, até as duas crianças adormecerem. Depois, pousou cuidadosamente a mão de Sarah e voltou para a sua cama.
De manhã, as duas meninas pareciam melhor, embora a cara de Sarah estivesse cheia de manchas vermelhas. Ella achou muita graça à figura da irmã, até ao momento em que se deu conta de que ela própria também tinha manchas na testa e à volta das orelhas.
Mais tarde, veio um funcionário do Ministério da Saúde e afixou na porta da cozinha um selo de quarentena. Charlotte e Gertie iam constantemente lá fora e ficavam a olhá-lo, cheias de respeito.
Nessa tarde bateram à porta.
– Quem é? – gritou a mãe.
– Sou eu, o Charlie. Não tenha medo, que não quero entrar. Só venho para conversar um bocadinho.
A mãe saiu para falar com Charlie, o empregado do marido.
– Como estão a Ella e a Sarah? – perguntou.
– A Sara não passou nada bem esta noite.
– Isto é muito difícil para si – disse Charlie com simpatia. – Há alguma coisa em que possa ajudá-la? Quer que vá comprar alguma coisa?
– Obrigada, Charlie, mas o meu marido já foi hoje às compras.
– Eu trouxe uma coisinha para as doentes, para elas se irem entretendo um pouco. Está a ver o embrulho aí ao canto, ao pé da porta? Sim, é esse – disse, quando a mãe pegou no embrulho. – E não se preocupe demasiado, mãe!
As doentes alegraram-se com o presente. Dentro do embrulho havia duas ardósias pequenas com esponja e uma caixa com giz de cor.
– O Charlie é amoroso. Pensa em tudo – disse Ella.
Os três dias seguintes passaram depressa. O doutor vinha de manhã, examinava as doentes, brincava com as outras, e voltava a sair. Durante o dia, Sarah estava alegre e cheia de vivacidade, e ela e a irmã conversavam muito uma com a outra. Durante a noite, a febre subia e chamavam então pela mãe, que passou mais três noites sem dormir.
Ao pequeno-almoço do quarto dia, esta anunciou:
– Hoje à noite começa o Pesach.
A mãe tinha concluído todos os preparativos. A casa estava a brilhar e os pratos para o Pesach estavam limpos. O Sr. Basch, o merceeiro, tinha amontoado diante da porta uma quantidade de embrulhos com comida especial para o Pesach.
As doentes estavam melhor. As erupções na cara e no corpo estavam a diminuir.
Nessa tarde, Charlotte e Gertie estavam sentadas no sofá da cozinha a fazer desenhos engraçados. As duas meninas tinham estado o dia todo estranhamente sossegadas. Se a mãe não tivesse tanto que fazer, de certeza que teria notado e estranhado mas, como não se dera conta, foi apanhada de surpresa pelas palavras de Charlotte:
– Mãe, sinto-me esquisita. Dói-me tanto a garganta!
E, como se isto não bastasse, Gertie disse também:
– A mim não me dói a garganta, mas sinto-me tão cansada!
– Era engraçado se também apanhássemos a escarlatina – disse Charlotte. – Assim, a nossa casa tornava-se um hospital a sério!
A mãe não achou graça e disse apenas:
– Vamos pedir ao Dr. Fuchs que vos examine também. Ele já deve estar a chegar.
O Dr. Fuchs veio e examinou-as. Não havia dúvida: a mãe tinha mais dois casos de escarlatina para tratar.
Henny foi informar o pai. Quando regressou, já havia quatro camas no quarto das doentes, e Charlotte e Gertie tinham sido metidas na cama. Ella e Sarah deram-lhes as boas vindas efusivamente. Henny, pelo contrário, andava na cozinha de um lado para o outro. Porque é que era a única que não estava doente? Agora é que não tinha mesmo mais ninguém com quem brincar.
A primeira noite de Seder tinha chegado. Que vazia parecia a mesa, só com três talheres! Nos anos anteriores, tinham sido convidados pobres, amigos e parentes! Os copos de cristal brilhantes foram enchidos de vinho: um grande para o pai, um médio para a mãe, e um pequeno para Henny. Um guardanapo imaculado cobria o tabuleiro de Seder que o pai tinha previamente preparado. Na bandeja estavam três pedaços de pão matzo (mão israelita feito sem fermento), símbolo da união, pois todos os Judeus deviam ser irmãos. No canto superior direito da bandeja, o pai tinha posto os ossos do cordeiro da Páscoa, e no canto superior esquerdo, um ovo cozido com casca, ambos símbolo das oferendas que nos tempos antigos eram feitas pelos Judeus e sacrificadas nesse dia sagrado. No centro da bandeja havia rábano picante e ervas amargas. No canto inferior direito, um pequeno recipiente com uma mistura de amendoins, maçãs descascadas e vinho, que representavam a argamassa e os tijolos que os Judeus tinham feito para o faraó do Egipto, há muitos milhares de anos. No canto inferior esquerdo havia um raminho de salsa, símbolo da Primavera e da esperança.
A cadeira do pai e o sofá de couro foram chegados à frente para perto da mesa e forrados com almofadas. Enquanto tomavam a refeição, o pai e a mãe iriam recostar-se neles como se fossem rei e rainha.
Nessa noite, não precisavam de ter medo de que não houvesse Haggadahs que chegassem para todos. Haggadahs são pequenos livros muito finos que remontam a mais de dois mil anos e onde está registada a história do Pesach. Os Haggadahs da família estavam escritos em inglês e em hebraico para as crianças poderem seguir a leitura do pai.
Neste Pesach, a mais antiga e a maior das festas judaicas, que começava com um bonito e colorido festejo, havia quatro meninas doentes, de cama, a chorar, porque não podiam participar totalmente.
O pai vestiu a bata de linho branco, pois desde os tempos antigos que as vestes de festa dos Judeus eram brancas, e parou por um momento em frente da porta do quarto, aberta para as crianças poderem ver o seu aspecto solene.
– Não chorem – pediu-lhes. – Vamos deixar a porta aberta e eu vou ler em voz alta para poderem ouvir-me. Se escutarem com atenção, também estarão a participar.
As doentes enxugaram os olhos e passaram a escutar atentamente, embora nada pudessem ver da celebração.
Lavadas as mãos, fez-se a bênção do vinho, que em seguida foi bebido. O pai voltou a encher os copos e distribuiu pequenos ramos de salsa que todos mergulharam em água salgada e em seguida comeram. A água salgada simbolizava as lágrimas que os Judeus haviam vertido quando eram escravos no Egipto. O pai partiu o segundo matzo e escondeu um pedaço grande entre as almofadas da cadeira. Em todas as noites anteriores de Seder, as filhas tinham-lhe seguido os movimentos com atenção, pois aquela que conseguisse tirar o pedaço de pão sem o pai dar conta recebia deste, como recompensa, o que quisesse. O pai tinha sempre dificuldade de saber quem tinha sido o ladrão, mas esta noite não ia haver dúvidas.
Os Haggadahs estavam abertos e o pai começou a cantar em hebraico: “Todos vós, que tendes fome, vinde e festejai, todos vós, que não podeis festejar o Seder, vinde e festejai connosco.
Em breve chegaram à parte da cerimónia em que o filho mais novo da família ou, na ausência deste, a filha mais nova, pedia uma explicação sobre a festa. Gertie ensaiara o seu papel durante semanas, e agora não estava à mesa para poder desempenhá-lo. O pai esperou e, em breve soou, vinda do quarto, a vozinha infantil a cantar, hesitante:
Pai, porque é que esta noite é diferente das outras?
Quando a menina acabou, o pai começou a ler com rapidez. Hoje soava apenas a sua voz mas, nas outras noites de Sedar, cantavam todos os convidados.
A celebração continuava e, enquanto o pai cantava, as páginas eram viradas umas atrás das outras, até que os Haggadahs foram finalmente postos de parte.
Teve início a refeição. Bebeu-se o segundo copo de vinho e voltaram a lavar as mãos. O pai estendeu um matzo e os três deram graças. Comeram as ervas amargas. A mãe trouxe para a mesa uma terrina cheia de ovos cozidos, pois os ovos simbolizavam vida e saúde. Foram mergulhados na água salgada e comidos. Após o primeiro prato, seguia-se sopa de galinha com almôndegas pequenas, feitas de farinha de matzo, depois havia galinha, legumes e fruta cozida a vapor.
Quando a refeição acabou, o pai procurou o pedaço de matzo escondido. Tinha desaparecido. Gertie gritou do quarto:
– Mas vocês prometeram-me que hoje eu podia roubar o afikomen (nome dado ao pedaço de pão matzo que é escondido propositadamente.)! Era a minha vez! E ele agora desapareceu e eu não vou receber nenhuma prenda!
– Não te zangues, Gertie – gritou Henny. – Tenho-o eu! E só o dou ao pai se ele nos oferecer às duas uma coisa!
Os olhos do pai piscavam, divertidos.
– Mas isto é uma violência! – disse. – O que posso oferecer-vos em troca do afikomen?
– Eu quero um tanque de roupa pequenino e uma tábua para poder lavar a roupa das minhas bonecas! – gritou Gertie imediatamente.
– Muito bem. E tu, Henny?
– Oh, eu queria uma moeda de cinco cêntimos. Mas jura-nos que vamos receber as prendas!
O pai prometeu e Henny entregou-lhe o afikomen. O pai partiu um pedaço para cada, como sobremesa, da mesma forma que nos tempos antigos era dado um pedaço do cordeiro da Páscoa a quem entrava no templo.
E era agora altura de abrir a porta ao profeta Elias, que um dia viria anunciar a chegada do Messias. Foi-lhe enchido um copo com vinho, pois dizia-se que na noite de Seder ele ia a todas as casas. Abria-se a porta para que entrasse e bebesse o vinho. As crianças não tiravam os olhos da porta e esperavam vê-lo, ou pelo menos ouvir o barulho das asas ao entrar.
As meninas nunca o viam nem ouviam, mas, de todas as vezes, estavam certas de que havia um pouquinho menos de vinho no copo do que antes de abrirem a porta.
– Pai! – gritaram. – O vinho não diminuiu?
– Sim – respondeu o pai. – Vejo que o profeta Elias esteve aqui!
Henny confirmou:
– De certeza absoluta que esteve aqui.
Já era tarde, as doentes estavam cansadas, por isso todos dispensaram as canções tradicionais. Henny e a mãe arrumaram tudo rapidamente e assim se passou a primeira noite de Seder.
A família tinha-se habituado à ideia de estar completamente só. Para a mãe, os dias haviam sido tão cheios de trabalho, que nem lhe sobrara tempo para pensar. Também tinha desistido de proteger Henny da febre escarlatina. Era esforço em vão, porque mal a mãe virava costas, Henny já estava no quarto das doentes. Além disso, o Dr. Fuchs tinha a impressão de que Henny não era atreita a esta doença, caso contrário já a teria contraído há muito tempo.
O único contacto que a mãe tinha para com o exterior era através da janela. Todos os dias, por volta do meio-dia, tocavam à campainha da porta. A mãe corria à janela da sala para cumprimentar os familiares que nesse dia vinham perguntar como iam as pequenas.
Charlie também batia à porta, dia sim, dia não, perguntava pelas crianças e deixava-lhes qualquer objecto pequeno: algumas folhas de papel de cor, ou uma carta engraçada, que fazia rir as meninas. Uma vez, Charlie trouxe cerejas cristalizadas, que elas adoraram. Outras vezes o pacote-surpresa trazia um brinquedo qualquer ou um jogo de tabuleiro.
– Charlie – dizia a mãe – nunca conheci ninguém que gostasse tanto de crianças! As meninas ficam felizes com os seus embrulhos, agradecem e mandam-lhe cumprimentos. Como podemos agradecer-lhe?
– São coisas sem importância – respondia Charlie embaraçado. – Só quero que as meninas fiquem contentes! – E desapareceu imediatamente pelas escadas abaixo.
Uma vez, o carteiro deixou um grosso envelope castanho que vinha dirigido às crianças. Nunca ninguém lhes tinha mandado nada pelo correio, e mal podiam acreditar que fosse para elas.
Ella abriu-o e retirou um exemplar novinho de uma revista infantil. Trazia presa uma carta, que Ella leu em voz alta. Era de Miss Allen, a bibliotecária, a pedir às crianças que se curassem depressa. Estava com saudades das suas carinhas alegres.
– É tão querida! – disse Sarah. – Gosto tanto dela!
– Todas nós gostamos dela – disse Ella, e a opinião era unânime.
O Pesach chegou ao fim e as meninas curaram-se. Tinha chegado o dia em que a casa iria ser desinfectada e, quando finalmente chegou, o funcionário do Ministério da Saúde foi recebido com vivas e aplausos.
Die Mädchenfamilie
München, DTV Junior, 1988
Excertos adaptados